ECG na Oclusão Coronariana Aguda: o que você não pode mais perder

Leandro Fioravanti Figueiredo22 de abril de 2026

Descubra como interpretar o ECG na oclusão coronariana aguda e evitar atrasos na reperfusão. Aprenda sobre o novo conceito de OMI. Não caia em ciladas.

Se você ainda pensa em síndrome coronariana aguda como “tem supra ou não tem supra”, está atrasado.

A cardiologia já mudou.

Hoje, o raciocínio correto é outro:

Existe oclusão coronariana?

Porque uma parcela relevante dos pacientes com artéria totalmente ocluída não apresenta supra de ST clássico — e são justamente esses que mais sofrem atraso na reperfusão.

“Se parece isquemia e o ECG não é normal — trate como oclusão até prova em contrário.”


O problema do modelo STEMI vs NSTEMI

O modelo tradicional falha de forma sistemática:

Até 25% das oclusões coronarianas não apresentam supra clássico
Até 30% dos NSTEMI podem ser, na prática, oclusões completas
Resultado: atraso na reperfusão, maior necrose miocárdica e pior prognóstico


O novo conceito: OMI (Occlusion Myocardial Infarction)

Não importa se tem supra.

Importa se existe oclusão coronariana aguda com risco de necrose.

E o ECG, quando bem interpretado, revela isso.


1. PADRÃO CLÁSSICO (STEMI)

Ainda é o mais reconhecido, embora limitado.

Supra de ST em derivações contíguas
≥1 mm na maioria das derivações
Em V2–V3:
≥2 mm homens >40 anos
≥2,5 mm homens <40 anos
≥1,5 mm mulheres

A presença de alterações recíprocas reforça o diagnóstico.

Mas atenção: nem toda oclusão gera supra clássico.


2. SINAIS PRECOCES (ANTES DO SUPRA)

Onda T hiperaguda

Primeiro sinal de oclusão.

Alta, larga, simétrica
Desproporcional ao QRS
Fase inicial da oclusão

Esse é o momento de ouro.


Distorção terminal do QRS

Ausência de onda S em V2–V3
Ausência de onda J

Indica isquemia transmural importante.

Não é detalhe. É gravidade.


3. EQUIVALENTES DE STEMI (CRÍTICOS)

Padrão de de Winter

InfraST ascendente ≥1 mm em V1–V6
Ondas T hiperagudas
Sem supra clássico

→ Oclusão proximal de DA
→ Hemodinâmica imediata


Supra em aVR + infra difuso

Supra em aVR ± V1
Infra generalizado

→ Isquemia global
→ Tronco de coronária esquerda ou doença triarterial
→ Altíssimo risco


Infarto posterior

Infra de ST em V1–V3
Onda T positiva
QRS alto (imagem em espelho)

→ Confirmar com V7–V9
→ OMI posterior


Síndrome de Wellens

T invertida profunda ou bifásica em V2–V3
Sem supra

→ Lesão crítica de DA proximal
→ Pré-infarto
→ NÃO realizar teste ergométrico


Critérios de Sgarbossa modificados

Fundamentais em BRE ou marcapasso:

Supra concordante ≥1 mm
Infra concordante em V1–V3
Supra discordante ≥25% da onda S


Padrão da “bandeira da África do Sul”

Supra em I, aVL e V2
Infra recíproco em III

→ Geralmente lesão de ramo diagonal
→ Equivalente de STEMI


Padrão de Aslanger

Um dos mais negligenciados.

Supra em DIII
Infra em DI e aVL
DII isoelétrico ou menor que DIII

Fisiopatologia: combinação de infarto inferior com isquemia lateral que altera o vetor do ST e mascara o supra clássico.

→ Oclusão de coronária direita ou circunflexa
→ Infarto inferior “disfarçado”

Regra prática:

Se DIII tem supra e DI tem infra → pense em oclusão inferior


4. PADRÕES SUTIS (OS MAIS PERIGOSOS)

Supra discreto

Pequena elevação + T desproporcional
Frequentemente ignorado


Alterações dinâmicas

ECG muda em minutos
Alternância de ST e onda T

→ Repetir ECG a cada 15–30 minutos


5. O ERRO QUE MAIS MATA

Não é desconhecimento.

É automatismo.

ECG sem supra → classificado como NSTEMI
Paciente internado → aguarda
Enquanto isso: artéria ocluída, miocárdio morrendo


6. RACIOCÍNIO PRÁTICO (ALGORITMO)

Diante de dor torácica:

  1. Existe supra clássico?
    → Sim → hemodinâmica imediata

  2. Não → procurar:

Onda T hiperaguda
Padrão de de Winter
Infra anterior (pensar em posterior)
aVR com infra difuso
Wellens
Aslanger
Padrões sutis

  1. Persistindo dúvida:

ECG seriado
Ecocardiograma à beira leito
Troponina não exclui fase precoce


7. REGRA DE OURO

OMI ≠ STEMI

Nem toda oclusão tem supra
Mas toda oclusão precisa de reperfusão


CONCLUSÃO

O ECG da oclusão coronariana aguda não é binário.

Ele é interpretativo.

E quem entende isso:

Diagnostica antes
Reperfunde mais rápido
Salva mais miocárdio
Reduz mortalidade

A pergunta não é mais:

“Tem STEMI?”

A pergunta correta é:

“Existe oclusão coronariana?”


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