Paciente com síndrome do pânico e dor torácica: qual é o melhor ansiolítico?

Leandro Fioravanti27 de abril de 2026

Entenda a relação entre síndrome do pânico e dor torácica, além de descobrir os melhores ansiolíticos como sertralina e escitalopram.

Uma das situações mais comuns e delicadas na prática clínica é o paciente que chega relatando dor no peito, palpitações, falta de ar, sensação de morte iminente, tremores, suor frio e medo intenso. Muitas vezes, depois da avaliação médica e cardiológica, descobre-se que o quadro é compatível com ataque de pânico ou transtorno do pânico.

Mas aqui existe uma regra fundamental: dor torácica nunca deve ser automaticamente atribuída à ansiedade sem avaliação clínica adequada. Antes de concluir que é pânico, é necessário excluir causas potencialmente graves, como síndrome coronariana aguda, arritmias, embolia pulmonar, crise hipertensiva, doença valvar, miocardite, pericardite, asma, hipertireoidismo e outras condições clínicas.

Depois de excluídas causas orgânicas relevantes, a pergunta passa a ser: qual é o melhor tratamento medicamentoso para a síndrome do pânico com sintomas torácicos?

A resposta mais atual é: os ISRSs são a base do tratamento de longo prazo, especialmente sertralina e escitalopram, enquanto os benzodiazepínicos podem ser usados apenas em situações específicas, por curto prazo e com cautela.

Primeiro passo: diferenciar dor cardíaca de dor do pânico

A crise de pânico pode simular uma emergência cardíaca. O paciente pode apresentar dor ou aperto no peito, palpitações, sensação de sufocamento, tontura, sudorese, tremores, náuseas, parestesias e medo de morrer. Esses sintomas são reais e muito intensos, mesmo quando não há infarto ou arritmia.

Por isso, o raciocínio correto é: primeiro segurança clínica; depois tratamento da ansiedade.

Em pacientes com dor torácica, especialmente acima de 40 anos, ou com fatores de risco como hipertensão, diabetes, tabagismo, dislipidemia, obesidade, histórico familiar de infarto precoce ou doença cardiovascular prévia, é prudente considerar avaliação com exame físico, eletrocardiograma, marcadores cardíacos quando indicado e estratificação de risco. A literatura sobre dor torácica não cardíaca também reforça que pacientes com dor torácica recorrente, após exclusão de causas cardíacas, devem ser avaliados para transtornos de ansiedade, incluindo pânico.  

O que é síndrome do pânico?

O transtorno do pânico é caracterizado por crises recorrentes e inesperadas de medo intenso, acompanhadas de sintomas físicos e cognitivos. O paciente frequentemente passa a viver com medo de ter novas crises, evita locais ou situações que associa ao pânico e pode desenvolver limitação importante da vida social, profissional e familiar.

A dor torácica no pânico costuma aparecer junto com taquicardia, falta de ar, hiperventilação, formigamento, sensação de desmaio, tremores e medo intenso. Mesmo assim, o diagnóstico deve ser feito com cautela, pois pânico e doença cardíaca podem coexistir.

Qual é o melhor ansiolítico?

Na linguagem popular, muitos pacientes chamam qualquer remédio para ansiedade de “ansiolítico”. Tecnicamente, porém, há uma diferença importante.

Os benzodiazepínicos, como clonazepam, alprazolam e diazepam, são ansiolíticos de ação rápida. Eles aliviam sintomas em minutos ou poucas horas, mas não são a melhor solução de longo prazo para transtorno do pânico.

Os ISRSs, como sertralina, escitalopram, paroxetina, fluoxetina e citalopram, são antidepressivos com forte ação antipânico. Eles não funcionam imediatamente, mas são considerados tratamento de primeira linha para controle sustentado, prevenção de novas crises e redução da ansiedade antecipatória. Revisões e diretrizes internacionais apontam os ISRSs como estratégia preferencial pela eficácia e melhor segurança no uso prolongado, em comparação aos benzodiazepínicos.  

Portanto, se a pergunta for “qual é o melhor remédio para controlar a crise agora?”, a resposta pode envolver benzodiazepínico em situações selecionadas.

Mas se a pergunta for “qual é o melhor tratamento para o transtorno do pânico?”, a resposta costuma ser: ISRS, especialmente sertralina ou escitalopram, associado à terapia cognitivo-comportamental.

Sertralina ou escitalopram: por que são boas opções?

A sertralina e o escitalopram são frequentemente escolhidos porque combinam boa eficácia, boa tolerabilidade e menor risco de dependência. Uma revisão sistemática com metanálise em rede, citada em revisões de farmacoterapia baseada em evidências, destacou que os ISRSs apresentam boas taxas de remissão com baixo risco de eventos adversos, e que sertralina e escitalopram se destacam entre os fármacos com perfil favorável.  

Na prática, esses medicamentos devem ser iniciados em dose baixa, porque alguns pacientes podem sentir piora transitória de ansiedade, náusea, inquietação, insônia ou desconforto nos primeiros dias. Esse fenômeno é importante: se o médico inicia dose alta, o paciente com pânico pode interpretar os efeitos iniciais como “o remédio me fez mal” e abandonar o tratamento.

Por isso, no transtorno do pânico, a regra prática é: começar baixo, subir devagar e acompanhar de perto.

E os benzodiazepínicos?

Benzodiazepínicos como clonazepam, alprazolam e diazepam têm ação rápida e podem ser úteis em crise aguda, sobretudo quando há sofrimento intenso, insônia importante ou incapacidade funcional temporária.

A revisão Cochrane sobre tratamentos farmacológicos no transtorno do pânico observou que clonazepam e alprazolam tiveram forte redução na frequência dos ataques de pânico em comparação ao placebo em estudos analisados.  

O problema é que eles têm riscos relevantes: sedação, lentificação psicomotora, prejuízo de memória, quedas, tolerância, dependência, sintomas de abstinência, piora com álcool e dificuldade de retirada em uso prolongado. Por isso, não devem ser encarados como tratamento definitivo isolado.

O melhor uso dos benzodiazepínicos, quando indicados, costuma ser temporário, como ponte nas primeiras semanas, enquanto o ISRS começa a fazer efeito. Depois, a tendência é reduzir gradualmente.

Entre eles, o clonazepam costuma ser preferido em muitos casos de transtorno do pânico por ter meia-vida mais longa, menor flutuação entre doses e menor risco de rebote entre tomadas quando comparado a benzodiazepínicos de ação mais curta. Mas isso não significa que seja “inofensivo”. Ele também exige indicação, dose, prazo e plano de retirada.

Por que não usar apenas benzodiazepínico?

Porque o transtorno do pânico geralmente precisa de tratamento de manutenção. O benzodiazepínico pode controlar sintomas rapidamente, mas não corrige o ciclo de medo, evitação e hipervigilância corporal. Além disso, com o tempo, o paciente pode precisar de doses maiores para o mesmo efeito, ou passar a ter medo de ficar sem o remédio.

Diretrizes e revisões sobre pânico reforçam que benzodiazepínicos não devem ser primeira linha de longo prazo, justamente pelos riscos de dependência e abstinência.  

Terapia cognitivo-comportamental: parte essencial do tratamento

O melhor tratamento para pânico não é apenas remédio. A terapia cognitivo-comportamental, conhecida como TCC, tem papel central. Ela ajuda o paciente a reconhecer o ciclo do pânico, reinterpretar sintomas físicos, reduzir medo da crise, enfrentar situações evitadas e desenvolver técnicas de respiração, exposição e regulação emocional.

A combinação de farmacoterapia com psicoterapia tende a ser mais eficaz do que qualquer abordagem isolada em muitos pacientes. Revisões Cochrane analisaram a combinação de psicoterapia e antidepressivos no transtorno do pânico, reforçando a importância da abordagem integrada.  

Dor torácica por pânico: o que orientar ao paciente?

O paciente deve entender que a dor do pânico é real, mas nem sempre é cardíaca. Ela pode vir de hiperventilação, tensão muscular, descarga adrenérgica, aumento da frequência cardíaca, contração da musculatura torácica e hipersensibilidade aos sinais corporais.

Mesmo assim, alguns sinais exigem pronto atendimento: dor em opressão desencadeada por esforço, dor irradiando para braço esquerdo, mandíbula ou dorso, falta de ar intensa, desmaio, sudorese fria, queda de pressão, palpitações sustentadas, saturação baixa, dor torácica nova em paciente de risco ou sintomas persistentes que não seguem o padrão habitual das crises.

Então, qual seria a melhor estratégia?

Para um paciente com síndrome do pânico e dor torácica, após exclusão de causas cardíacas relevantes, a abordagem mais racional é:

Primeiro: confirmar que não há quadro cardiovascular agudo.

Segundo: iniciar tratamento de base com ISRS, geralmente sertralina ou escitalopram, em dose baixa e titulação gradual.

Terceiro: considerar benzodiazepínico por curto prazo apenas se houver crise intensa, sofrimento importante ou necessidade de controle rápido, sempre com plano de retirada.

Quarto: associar terapia cognitivo-comportamental.

Quinto: revisar fatores que pioram pânico e dor torácica, como cafeína, energético, nicotina, álcool, privação de sono, sedentarismo, hipertireoidismo, arritmias, refluxo gastroesofágico e uso de estimulantes.

Conclusão

Em pacientes com síndrome do pânico e dor torácica, o melhor tratamento não é simplesmente “dar um calmante”. O mais seguro é primeiro excluir causas cardíacas e clínicas relevantes. Depois, o tratamento de longo prazo deve priorizar ISRSs, especialmente sertralina ou escitalopram, associados à terapia cognitivo-comportamental.

Benzodiazepínicos podem ser úteis em momentos específicos, mas devem ser usados com cautela, por curto prazo e com plano de retirada. Eles aliviam rapidamente, mas não devem ser a base permanente do tratamento.

A medicina moderna precisa tratar o paciente como um todo: coração, cérebro, metabolismo, sono, comportamento e risco cardiovascular. Dor torácica e pânico não são diagnósticos que se excluem automaticamente. Eles exigem raciocínio clínico, segurança e acompanhamento.

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