Holiday Heart Syndrome: quando o feriado termina, mas o coração continua pagando a conta


O feriado costuma começar antes mesmo da viagem. Na sexta-feira, muitos pacientes já avisam que vão “relaxar um pouco”. Outros garantem que será “só esse fim de semana”. Em poucas horas, a rotina muda completamente: mais bebida alcoólica, churrasco, pouco sono, excesso alimentar, energético, café, longas viagens, desidratação e noites mal dormidas.


O problema é que o corpo não entra em feriado junto com o calendário.


E o coração costuma perceber rapidamente quando os excessos começam.


Nos últimos anos, cardiologistas têm observado um aumento de episódios de palpitações, arritmias e fibrilação atrial após fins de semana prolongados, festas e períodos de consumo alcoólico mais intenso. Esse fenômeno recebeu um nome bastante conhecido na cardiologia: Holiday Heart Syndrome, ou “Síndrome do Coração de Feriado”.


A condição foi descrita inicialmente na década de 1970 após médicos identificarem que pacientes sem doença cardíaca conhecida chegavam aos hospitais apresentando arritmias logo após períodos festivos. Em muitos casos, os sintomas apareciam poucas horas depois de exageros alimentares e alcoólicos.


A fibrilação atrial é uma das apresentações mais comuns desse quadro. Trata-se de uma arritmia em que os átrios passam a apresentar atividade elétrica desorganizada, produzindo sensação de coração irregular, acelerado e desconfortável. Alguns pacientes relatam palpitações intensas, tontura, falta de ar, sensação de ansiedade súbita e mal-estar importante.


Nem sempre o paciente entende o que está acontecendo.


Muitos acreditam que seja apenas nervosismo, refluxo ou “algo que comeram”.


Mas, algumas vezes, o coração está respondendo diretamente ao ambiente metabólico criado durante o feriado.


O álcool exerce efeito importante sobre o sistema elétrico cardíaco. Além disso, o excesso alcoólico costuma vir acompanhado de desidratação, perda de eletrólitos, alteração do sono e aumento da atividade simpática, criando um cenário altamente favorável para instabilidade elétrica do coração.


Outro ponto que chama atenção é o chamado binge drinking, padrão em que o paciente consome grande quantidade de álcool em curto período. Muitas vezes, não é alguém que bebe diariamente, mas sim uma pessoa que exagera em poucas horas durante festas, viagens ou encontros sociais.


Na prática, é comum ouvir relatos como:


“Acordei de madrugada com o coração disparado.”


“Depois do churrasco comecei a sentir batimentos fora do ritmo.”


“Bebi no sábado e no domingo passei mal.”


Além do álcool, outros fatores do feriado também participam do problema. O excesso de sal pode elevar pressão arterial e aumentar retenção de líquidos. A privação de sono aumenta catecolaminas e desorganiza o sistema autonômico. A desidratação favorece alterações de sódio, potássio e magnésio, fundamentais para estabilidade elétrica cardíaca.


O coração depende de equilíbrio fino.


E pequenas alterações podem desencadear sintomas importantes em pessoas predispostas.


Pacientes com hipertensão, obesidade, diabetes, apneia do sono ou histórico prévio de arritmia costumam apresentar risco ainda maior. Porém, a Holiday Heart Syndrome também pode surgir em indivíduos previamente saudáveis.


Esse é justamente um dos aspectos mais perigosos do quadro.


O paciente acredita que “não tem nada no coração” e, por isso, subestima os sinais.


Mas palpitação persistente, falta de ar, tontura, sensação de desmaio, dor torácica ou batimentos irregulares não devem ser banalizados, especialmente após episódios de excesso alcoólico.


Em alguns casos, a arritmia desaparece espontaneamente.


Em outros, persiste e exige avaliação médica, eletrocardiograma e definição de conduta.


A fibrilação atrial merece atenção especial porque pode aumentar risco de AVC, insuficiência cardíaca e outras complicações cardiovasculares, principalmente em pacientes com fatores de risco associados.


A prevenção, no entanto, costuma ser mais simples do que muita gente imagina.


Moderação alcoólica.


Hidratação adequada.


Sono regular.


Menos energético.


Menos excesso alimentar.


Menos sal.


Mais equilíbrio.


O objetivo não é transformar o feriado em ambiente hospitalar.


Mas lembrar que o corpo continua funcionando mesmo durante momentos de lazer.


O coração não entende que “é só esse fim de semana”.


Ele apenas responde ao ambiente que recebe.


E, muitas vezes, responde rápido.


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