Cardiologia em 2026: o que muda no cuidado do coração, dos rins e do metabolismo
A cardiologia vive um dos momentos mais intensos de atualização das últimas décadas. Entre o final de 2025 e a metade de 2026, uma sequência de novas diretrizes, ensaios clínicos e aprovações regulatórias redesenhou parte relevante da prática clínica diária. O fio condutor é claro: coração, rins e metabolismo deixaram de ser tratados como sistemas isolados.
A síndrome cardiometabólica ganha diretriz própria
Em junho de 2026, ACC, AHA, ADA e ASN publicaram, em conjunto, a primeira diretriz dedicada à síndrome cardiometabólica. O documento consolida prevenção, rastreamento e manejo sob uma única lógica clínica, reconhecendo que obesidade, diabetes, doença renal crônica e doença cardiovascular caminham juntas e devem ser avaliadas de forma integrada, não mais em compartimentos separados de especialidade.
Poucos meses antes, em março de 2026, ACC e AHA já haviam atualizado a diretriz de manejo da dislipidemia, incorporando o volume crescente de evidências sobre terapias hipolipemiantes intensivas e novas classes de medicamentos.
Metas de LDL mais agressivas ganham respaldo
O estudo Ez-PAVE trouxe um dado com potencial de mudar a prática: reduzir o LDL-C para menos de 55 mg/dL diminuiu de forma significativa os eventos cardiovasculares maiores, quando comparado à meta tradicional de menos de 70 mg/dL, em pacientes com doença aterosclerótica já estabelecida. A mensagem é direta — para quem já teve um evento coronariano, "mais baixo" continua sendo melhor.
Na mesma linha, uma análise de subgrupo do estudo VESALIUS-CV mostrou benefício do evolocumabe também em pacientes de alto risco com diabetes, mesmo sem aterosclerose significativa conhecida, ampliando o racional para tratamento hipolipemiante mais precoce nessa população.
O fim da era exclusiva das injeções para reduzir LDL?
Um dos destaques do ACC 2026 foi o estudo CORALreef AddOn, que testou a enlicitida, inibidor oral de PCSK9, comparando-a à ezetimiba, ao ácido bempedoico e à combinação dos dois. O resultado favoreceu a enlicitida em eficácia de redução do LDL-C.
Esse dado ganhou peso regulatório em julho de 2026, quando o FDA aprovou o Lipfendra (enlicitida) como o primeiro inibidor oral de PCSK9 em dose única diária, indicado para hipercolesterolemia, incluindo a forma familiar heterozigótica. Até então, essa classe terapêutica dependia de aplicações injetáveis — a chegada de uma opção oral tende a facilitar a adesão em pacientes que evitam injeções.
O ácido bempedoico (Nexletol) também ampliou sua indicação em 2025, passando a incluir redução de risco de infarto e de revascularização coronariana em pacientes que não toleram estatinas.
GLP-1 e tirzepatida: cada vez mais cardiovasculares
A análise post hoc do estudo SURPASS-CVOT mostrou que a tirzepatida reduziu desfechos cardiometabólicos compostos em comparação à dulaglutida, em pacientes com diabetes tipo 2 — mais um capítulo reforçando o papel cardiovascular dos agonistas de GLP-1/GIP, que já vinham se consolidando além do controle glicêmico e da perda de peso.
O Zepbound (tirzepatida), aliás, teve sua indicação expandida em 2025 para tratar apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, somando-se ao uso já aprovado para emagrecimento.
Betabloqueador para sempre? Talvez não
Um dos resultados mais discutidos do ciclo 2025-2026 foi o estudo SMART-DECISION, que sugeriu ser possível, em pacientes estáveis, descontinuar o uso de betabloqueadores um ano após infarto do miocárdio, desde que a fração de ejeção esteja preservada em 40% ou mais, sem inferioridade em relação à manutenção do tratamento. É um dado que ainda precisa de confirmação e cautela na aplicação prática, mas que já reabre o debate sobre o uso vitalício desses medicamentos em subgrupos selecionados.
Insuficiência cardíaca: incretinas entram em cena
O painel de insuficiência cardíaca trouxe evidências crescentes a favor dos antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide e das terapias baseadas em incretinas, inclusive em pacientes com fração de ejeção levemente reduzida ou preservada — perfis historicamente mais difíceis de tratar. Também ganhou validação a estratégia de otimização rápida da terapia guiada por diretrizes já durante a internação por insuficiência cardíaca aguda.
Triglicerídeos, alimentação e edição gênica
Do lado da AHA 2025, os estudos CORE-TIMI 72a e 72b mostraram que o olezarsen reduziu de forma expressiva os triglicerídeos e o risco de pancreatite aguda em pacientes com hipertrigliceridemia grave. O CORALreef Lipids reforçou a redução de LDL-C acima de 55% com a enlicitida, sustentada por 52 semanas de acompanhamento.
Um estudo com apelo social importante, o GoFresh, mostrou que a entrega domiciliar de alimentos no padrão DASH, associada a orientação breve, melhorou significativamente a pressão arterial sistólica e o LDL-C em adultos negros residentes em áreas com insegurança alimentar — um lembrete de que intervenção cardiovascular também passa por acesso e contexto social.
No campo mais experimental, o ACC publicou em março de 2026 um posicionamento científico sobre terapias de edição gênica em cardiologia, com foco em CRISPR-Cas9 e nanopartículas lipídicas aplicadas à hipercolesterolemia familiar e à amiloidose — ainda território de fronteira, mas com potencial de reorganizar o tratamento dessas condições genéticas no médio prazo.
Inteligência artificial já está na rotina
A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a integrar avaliação de idade vascular, estratificação de risco individualizada e análise de exames de imagem cardiovascular, como ecocardiograma, ressonância cardíaca e angiotomografia, além do monitoramento remoto de pacientes.
Europa também atualiza sua régua de risco
Na Europa, a atualização focada ESC/EAS de 2025 sobre dislipidemia introduziu os modelos SCORE2 e SCORE2-OP para cálculo de risco em dez anos, estendendo sua aplicabilidade até os 89 anos e priorizando o colesterol não-HDL em vez do colesterol total como referência central de avaliação.
Destaque da semana
Entre tantas novidades, um estudo merece atenção redobrada: o Ez-PAVE, ao demonstrar que empurrar o LDL-C para abaixo de 55 mg/dL reduz mais eventos cardiovasculares do que a meta de 70 mg/dL em pacientes com aterosclerose estabelecida, reforça uma tendência que deve se consolidar nas próximas diretrizes internacionais: metas de LDL cada vez mais rigorosas para quem já tem doença coronariana documentada.
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