Anticoagulante após TAVI? Novos estudos desafiam o uso isolado de aspirina
A terapia antitrombótica após o implante transcateter de válvula aórtica (TAVI) voltou ao centro das discussões no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2026. Dois estudos, ACASA-TAVI e NOTION-4, trouxeram novos dados sobre um problema que ganhou importância à medida que a TAVI passou a ser realizada em pacientes mais jovens: a trombose subclínica dos folhetos da prótese.
O que é HALT?
Após a TAVI, alguns pacientes desenvolvem espessamento hipoatenuante dos folhetos da prótese, conhecido pela sigla HALT (hypoattenuated leaflet thickening).
A alteração é identificada principalmente pela tomografia computadorizada cardíaca e representa uma forma de trombose subclínica dos folhetos.
O paciente pode estar completamente assintomático, e o ecocardiograma convencional nem sempre identifica o problema.
A grande questão é saber se essa alteração de imagem interfere na durabilidade da prótese ou aumenta, em longo prazo, o risco de acidente vascular cerebral, embolização ou disfunção valvar.
O que mostrou o ACASA-TAVI?
O ACASA-TAVI randomizou 360 pacientes entre 65 e 80 anos, submetidos à TAVI e sem outra indicação estabelecida de anticoagulação.
Os participantes receberam durante 12 meses monoterapia com um anticoagulante oral direto ou ácido acetilsalicílico.
O resultado chamou atenção.
HALT ocorreu em:
16,2% dos pacientes que receberam anticoagulação;
28,6% dos pacientes tratados com aspirina.
Isso correspondeu a uma redução relativa de aproximadamente 45% na ocorrência de HALT.
O desfecho combinado de segurança — envolvendo sangramento, eventos tromboembólicos e mortalidade — ocorreu em 7,5% no grupo anticoagulação e 10,6% no grupo aspirina, atingindo o critério estatístico de não inferioridade. (JAMA Network)
O NOTION-4 reforçou o mecanismo
Outro estudo apresentado na ESC 2026, o NOTION-4, avaliou anticoagulação oral direta durante três meses após TAVI seguida de terapia antiplaquetária.
Durante o período de anticoagulação houve importante redução do HALT. Entretanto, parte do benefício diminuiu meses após a suspensão do anticoagulante.
O achado sugere que a anticoagulação realmente interfere na formação da trombose dos folhetos, mas também levanta uma pergunta importante: por quanto tempo seria necessário anticoagular para manter esse benefício? (American College of Cardiology)
Isso significa que todos devem receber anticoagulante depois da TAVI?
Ainda não.
É importante separar um desfecho de imagem de um benefício clínico comprovado.
O ACASA-TAVI mostrou redução convincente de HALT, mas teve apenas 360 participantes e não foi dimensionado para demonstrar de forma definitiva redução de AVC, infarto ou mortalidade.
Além disso, estudos anteriores já mostraram que estratégias de anticoagulação indiscriminada após TAVI podem trazer problemas.
Por esse motivo, as diretrizes ESC/EACTS de 2025 não recomendavam anticoagulação oral sistemática para pacientes submetidos à TAVI que não apresentassem outra indicação para anticoagulação. (OUP Academic)
O que muda na prática?
Os novos estudos não encerram a discussão — eles provavelmente iniciam uma nova fase dela.
O raciocínio passa a ser cada vez mais individualizado.
Em pacientes jovens, com expectativa de longa duração da prótese e baixo risco hemorrágico, prevenir trombose subclínica pode tornar-se particularmente relevante.
Entretanto, ainda precisamos saber se menos HALT significa efetivamente próteses mais duráveis e menos eventos cardiovasculares.
Portanto, neste momento, o principal recado é:
a anticoagulação reduz claramente a trombose subclínica dos folhetos após TAVI, mas ainda não existem evidências suficientes para anticoagular rotineiramente todos os pacientes sem outra indicação formal.
Os próximos estudos deverão responder à pergunta mais importante: tratar a imagem melhora o prognóstico do paciente?
Comentários
Postar um comentário