Dapagliflozina + jejum intermitente: uma combinação poderosa para emagrecer ou uma associação que exige cautela?
A ideia parece perfeita do ponto de vista metabólico.
De um lado, o jejum intermitente reduz o período disponível para alimentação e favorece a transição metabólica do uso predominante de glicose para maior mobilização de gordura.
Do outro, a dapagliflozina faz o organismo eliminar glicose pela urina, produzindo perda energética diária e modificando profundamente o metabolismo da glicose.
Então surge uma pergunta inevitável:
se as duas estratégias favorecem déficit energético e utilização de gordura, combiná-las poderia potencializar o emagrecimento?
A resposta mais correta em 2026 é:
biologicamente, a hipótese faz sentido e os primeiros dados são interessantes. Mas ainda não temos evidência clínica suficiente para recomendar dapagliflozina associada ao jejum intermitente como estratégia de emagrecimento — e existe uma questão de segurança que não pode ser ignorada: a cetoacidose euglicêmica.
E é justamente essa aparente contradição que torna o assunto tão interessante.
Primeiro: o que a dapagliflozina realmente faz?
A dapagliflozina pertence à classe dos inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2, os chamados inibidores de SGLT2.
Normalmente, os rins filtram grandes quantidades de glicose diariamente e recuperam praticamente toda essa glicose antes que a urina seja eliminada.
Grande parte dessa reabsorção ocorre através do SGLT2 no túbulo proximal.
Quando bloqueamos esse transportador, parte da glicose deixa de retornar ao sangue e passa a ser eliminada na urina.
Surge a:
glicosúria.
E perder glicose significa perder energia.
Em pessoas com diabetes e função renal preservada, a quantidade pode chegar a dezenas de gramas de glicose por dia, embora varie substancialmente conforme glicemia e função renal.
É quase como criar uma pequena “válvula de escape” energética através dos rins.
Mas essa é apenas uma parte da história.
Os SGLT2 também modificam insulina, glucagon, utilização de substratos energéticos e produção de corpos cetônicos.
E são justamente essas mudanças que começam a aproximar farmacologicamente a dapagliflozina de alguns efeitos metabólicos do jejum.
O que acontece metabolicamente durante o jejum?
Depois de uma refeição, o organismo encontra-se em um ambiente predominantemente anabólico.
A insulina aumenta.
A glicose é utilizada.
O glicogênio é armazenado.
A síntese e o armazenamento de energia são favorecidos.
Quando permanecemos várias horas sem ingerir alimentos, esse cenário começa a mudar.
A insulina diminui.
O glucagon ganha maior importância relativa.
O glicogênio hepático passa a fornecer glicose.
A lipólise aumenta.
Ácidos graxos são mobilizados.
E, à medida que o jejum se prolonga, o fígado aumenta a produção de corpos cetônicos.
O metabolismo começa progressivamente a migrar de:
glicose → gordura e cetonas.
Esse fenômeno é frequentemente chamado de metabolic switching, ou mudança de combustível metabólico.
E agora aparece a questão central.
A dapagliflozina também empurra o metabolismo nessa direção
Ao eliminar glicose pela urina e reduzir glicemia e insulinemia, os inibidores de SGLT2 podem aumentar a relação glucagon/insulina e favorecer lipólise e cetogênese.
Portanto, temos duas intervenções diferentes convergindo parcialmente para um mesmo ambiente metabólico:
jejum → ↓ insulina + ↑ mobilização de gordura + ↑ cetogênese
SGLT2 → glicosúria + ↓ disponibilidade de glicose/insulina + ↑ utilização de gordura e cetonas
Isso cria uma hipótese fascinante:
talvez as duas intervenções sejam metabolicamente sinérgicas.
Mas existe também o outro lado:
talvez essa mesma sinergia aumente excessivamente a cetogênese em indivíduos suscetíveis.
E aí chegamos à diferença entre uma hipótese interessante e uma estratégia clinicamente comprovada.
Um estudo de 2026 colocou essa combinação à prova
Pesquisadores publicaram em abril de 2026, na Cell & Bioscience, um experimento especificamente desenhado para investigar a combinação de dapagliflozina e jejum intermitente.
O modelo utilizado foi de obesidade induzida por dieta hiperlipídica.
E os resultados chamaram atenção.
A associação produziu efeitos metabólicos e antropométricos superiores aos observados com as intervenções isoladamente.
Os pesquisadores encontraram alterações em vias relacionadas à AMPK, sirtuínas e genes do relógio circadiano, além de redução de marcadores inflamatórios e alterações favoráveis na microbiota intestinal.
Parece impressionante.
Existe, porém, uma informação fundamental:
o estudo foi realizado em ratos.
Esse detalhe muda completamente a interpretação.
Resultados experimentais podem revelar mecanismos extremamente interessantes e justificar ensaios clínicos.
Mas não permitem concluir automaticamente que uma estratégia seja eficaz — muito menos segura — em seres humanos.
Ratos não são pequenos humanos.
Portanto, o estudo de 2026 deve ser interpretado como prova mecanística pré-clínica, e não como autorização para prescrever a associação para emagrecimento.
Mas já temos alguma evidência em humanos?
Temos algo próximo.
E o resultado também é interessante.
Em 2025, o BMJ publicou um ensaio multicêntrico, duplo-cego e randomizado envolvendo 328 pessoas com diabetes tipo 2, IMC acima de 25 kg/m² e menos de seis anos de diagnóstico.
Todos realizaram restrição calórica moderada.
Metade recebeu dapagliflozina 10 mg/dia e a outra metade placebo.
Após 12 meses, a remissão do diabetes ocorreu em:
44% no grupo dapagliflozina + restrição calórica
contra
28% no grupo placebo + restrição calórica.
A combinação também produziu maior redução do peso corporal, gordura corporal, pressão arterial sistólica e alguns parâmetros metabólicos. A diferença ajustada de peso entre os grupos foi de aproximadamente 1,3 kg.
É um resultado clinicamente relevante.
Mas existe uma distinção fundamental:
restrição calórica não é a mesma coisa que jejum intermitente.
Esse estudo não testou 16:8.
Não testou jejum em dias alternados.
Não testou jejuns prolongados.
Portanto, ele demonstra que a dapagliflozina pode complementar uma intervenção dietética estruturada em determinados pacientes com diabetes tipo 2.
Não demonstra que dapagliflozina + jejum intermitente seja superior ou segura em humanos.
Até aqui, essa distinção precisa permanecer muito clara.
E agora chegamos ao paradoxo das cetonas
Os corpos cetônicos não são, por definição, algo ruim.
Durante jejum, exercício prolongado ou dietas com baixa disponibilidade de carboidratos, pequenas elevações de cetonas podem fazer parte de uma resposta fisiológica normal.
O problema surge quando a produção de cetonas se torna excessiva e provoca acidose metabólica.
Isso é:
cetoacidose.
Na cetoacidose diabética clássica, costumamos imaginar glicemias muito elevadas.
Com os inibidores de SGLT2, entretanto, existe uma situação particularmente traiçoeira.
A cetoacidose pode acontecer sem uma glicemia assustadora
Essa é a chamada:
cetoacidose diabética euglicêmica.
O paciente pode apresentar náuseas, vômitos, dor abdominal, fraqueza, mal-estar, respiração alterada e acidose metabólica.
Mas a glicemia pode estar normal ou apenas moderadamente elevada.
Por quê?
Porque a dapagliflozina continua fazendo o rim eliminar glicose.
Portanto, um dos sinais que tradicionalmente chamaria atenção para uma cetoacidose — uma hiperglicemia intensa — pode estar atenuado.
É exatamente por isso que a combinação com jejum merece cautela.
O mesmo mecanismo que parece interessante para emagrecer pode aumentar o risco de cetose excessiva
Imagine o cenário.
A pessoa está em jejum.
A insulina está reduzida.
A lipólise aumenta.
O fígado recebe mais ácidos graxos.
A produção de cetonas aumenta.
Agora adicionamos um medicamento que provoca glicosúria e também pode favorecer um ambiente de menor relação insulina/glucagon e maior cetogênese.
Em grande parte das pessoas, isso não necessariamente produzirá cetoacidose.
Mas em indivíduos suscetíveis, principalmente quando surgem outros fatores precipitantes, a combinação pode se tornar problemática.
Entre esses fatores estão ingestão alimentar muito reduzida, desidratação, doença aguda, deficiência de insulina, consumo excessivo de álcool, dietas extremamente pobres em carboidratos e períodos prolongados sem alimentação.
Um experimento em humanos mostrou claramente esse fenômeno
Em 2025, pesquisadores estudaram 20 adultos com diabetes tipo 1 submetidos a retirada supervisionada de insulina em duas situações: tratamento habitual e após duas semanas de dapagliflozina 10 mg/dia.
Com dapagliflozina, os níveis de β-hidroxibutirato e acetona no ar expirado ficaram significativamente maiores.
Ao mesmo tempo, o pico de glicemia foi menor.
Ou seja:
mais cetonas, mas menos hiperglicemia.
É praticamente uma demonstração experimental do motivo pelo qual a cetoacidose associada aos SGLT2 pode passar despercebida se alguém olhar apenas para a glicemia.
Existe, contudo, uma ressalva essencial: o estudo foi realizado em diabetes tipo 1 durante retirada deliberada de insulina, situação de risco muito maior do que a encontrada habitualmente em diabetes tipo 2.
Não devemos extrapolar quantitativamente esses resultados para todos os usuários de dapagliflozina.
O estudo serve principalmente para demonstrar o mecanismo.
Então dapagliflozina e jejum intermitente nunca podem ser associados?
Essa conclusão também seria exagerada.
Uma janela alimentar moderada é muito diferente de permanecer 24, 48 ou 72 horas sem comer.
E uma pessoa com diabetes tipo 2, boa reserva pancreática, hidratada e clinicamente estável é muito diferente de um paciente insulinopênico, doente, desidratado ou submetido a cirurgia.
Portanto, não existe simplesmente:
“jejum + dapagliflozina = cetoacidose.”
O risco depende do contexto.
Mas existe uma regra importante:
quanto maior a restrição alimentar e menor a disponibilidade de carboidratos e insulina, maior deve ser nossa cautela com um inibidor de SGLT2.
E usar dapagliflozina apenas para emagrecer?
Aqui é importante separar as indicações médicas do medicamento de um possível efeito colateral metabolicamente interessante.
A dapagliflozina tornou-se uma droga extremamente importante na medicina moderna.
Seus benefícios vão muito além da glicemia, especialmente em determinados pacientes com insuficiência cardíaca e doença renal crônica.
Mas isso não significa que seja um medicamento para ser acrescentado indiscriminadamente a um protocolo de emagrecimento.
No ensaio do BMJ, por exemplo, os participantes tinham diabetes tipo 2, sobrepeso ou obesidade e doença relativamente recente.
Não podemos transformar esse resultado em:
“quem quer emagrecer deveria tomar dapagliflozina.”
São perguntas clínicas completamente diferentes.
E quanto peso a dapagliflozina faz perder?
Em média, o efeito isolado sobre peso é relativamente modesto.
Isso também faz sentido fisiologicamente.
Embora o paciente elimine glicose e calorias pela urina, o organismo possui mecanismos compensatórios.
A fome pode aumentar.
O gasto energético pode se adaptar.
E a perda de peso tende a atingir um platô.
Portanto, a dapagliflozina não deve ser imaginada como uma espécie de “lipossucção farmacológica pela urina”.
Se o objetivo primário for tratamento farmacológico da obesidade, existem atualmente medicamentos especificamente estudados e aprovados para essa finalidade, cuja indicação deve ser avaliada individualmente.
Um cuidado adicional: desidratação
Existe outro ponto de encontro entre jejum e SGLT2.
A dapagliflozina promove glicosúria e natriurese, aumentando a perda urinária de água e sódio.
Se o paciente simultaneamente reduz ingestão de líquidos — ou realiza um tipo de jejum que também restringe água — aumenta a possibilidade de depleção volêmica.
Isso merece atenção especial em idosos, pessoas utilizando diuréticos, pacientes com pressão arterial baixa e situações de calor intenso, vômitos ou diarreia.
Jejum alimentar e jejum hídrico são coisas completamente diferentes.
Restrição de água associada a SGLT2 é uma combinação particularmente indesejável.
E se aparecer náusea durante o jejum?
Esse é um ponto prático importantíssimo.
Uma pessoa tomando dapagliflozina pode pensar:
“Minha glicose está 130 mg/dL. Então não pode ser cetoacidose.”
Pode.
Se houver sintomas compatíveis — especialmente náuseas, vômitos, dor abdominal, fraqueza intensa, mal-estar ou respiração anormal — a glicemia isoladamente não exclui cetoacidose relacionada ao SGLT2.
Nesse contexto, é necessário avaliar cetonas e equilíbrio ácido-base conforme a situação clínica.
É justamente a possibilidade de glicemia relativamente baixa que torna a condição euglicêmica.
Quando o medicamento merece ser temporariamente interrompido?
Os chamados sick-day rules são fundamentais para usuários de SGLT2.
Situações de doença aguda com ingestão alimentar reduzida, vômitos, desidratação ou incapacidade de manter hidratação exigem avaliação da suspensão temporária.
Cirurgias e procedimentos que envolvam jejum também merecem planejamento específico.
O ponto central é simples:
não é prudente manter automaticamente um medicamento que favorece cetogênese enquanto o organismo enfrenta privação alimentar importante, doença aguda ou deficiência relativa de insulina.
A suspensão e a retomada devem seguir a indicação clínica e as recomendações aplicáveis ao paciente.
O que podemos afirmar em 2026?
A ciência atual permite separar o assunto em três níveis de evidência.
Primeiro: existe forte plausibilidade biológica. Dapagliflozina e jejum modificam parcialmente vias metabólicas convergentes relacionadas à utilização de substratos, insulina, glucagon, oxidação de gordura e cetogênese.
Segundo: existe um resultado pré-clínico recente especificamente mostrando efeitos metabólicos adicionais de dapagliflozina + jejum intermitente em modelo animal.
Terceiro: em humanos, existe evidência de benefício da dapagliflozina quando combinada à restrição calórica em pacientes selecionados com diabetes tipo 2 — inclusive com maior frequência de remissão no estudo do BMJ.
O elo que ainda falta é fundamental:
ensaios clínicos robustos testando especificamente dapagliflozina + jejum intermitente em humanos.
Sem esse elo, não podemos tratar uma hipótese promissora como uma estratégia terapêutica estabelecida.
O paradoxo final
Talvez a melhor maneira de entender essa combinação seja reconhecer que sua possível vantagem e seu principal risco nascem parcialmente da mesma fisiologia.
A dapagliflozina favorece um ambiente metabólico com maior utilização de gordura e produção de cetonas.
O jejum também.
Isso pode ser metabolicamente interessante.
Mas, levado longe demais ou aplicado ao paciente errado, também pode favorecer cetogênese excessiva e cetoacidose.
Por isso, a mensagem não deveria ser:
“dapagliflozina potencializa o jejum.”
Nem:
“é proibido jejuar tomando dapagliflozina.”
A mensagem cientificamente mais adequada é:
A combinação é biologicamente interessante, mas ainda experimental como estratégia específica de emagrecimento. Em pacientes que já possuem indicação clínica para dapagliflozina, qualquer protocolo de jejum deve ser individualizado e acompanhado, principalmente por causa do risco de cetoacidose euglicêmica, desidratação e necessidade de ajustes durante doenças ou períodos de baixa ingestão alimentar.
Em medicina, duas intervenções metabolicamente interessantes não se tornam automaticamente melhores quando colocadas juntas.
Às vezes elas se potencializam.
E às vezes potencializam também os riscos.
Referências
- Senousy MA, Abo-Elmaaty RM, Nabil Omar N, Abdelgawad HM. Dapagliflozin-intermittent fasting combination maximizes weight and metabolic regulation through AMPK/sirtuins/clock genes and gut microbiota signaling in high-fat diet-induced obesity: a novel anti-obesity approach. Cell & Bioscience. 2026;16:41. DOI: 10.1186/s13578-026-01557-4.
- Liu Y, Chen Y, Ma J, et al. Dapagliflozin plus calorie restriction for remission of type 2 diabetes: multicentre, double blind, randomised, placebo controlled trial. BMJ. 2025;388:e081820. DOI: 10.1136/bmj-2024-081820.
- Petersen MC, Jones KE, Markov AM, et al. Effect of dapagliflozin on blood and breath ketones during supervised insulin withdrawal in adults with type 1 diabetes: A randomized crossover trial. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2025;27(6):3124–3131. DOI: 10.1111/dom.16324.
- O’Hara DV, Lam CSP, McMurray JJV, et al. Applications of SGLT2 inhibitors beyond glycaemic control. Nature Reviews Nephrology. 2024;20(8):513–529.
- Lee YH, Lim S, Davies MJ. Cardiometabolic and renal benefits of sodium–glucose cotransporter 2 inhibitors.Nature Reviews Endocrinology. 2025;21(12):783–798.
- Lupsa BC, Kibbey RG, Inzucchi SE. Ketones: the double-edged sword of SGLT2 inhibitors? Diabetologia. 2023;66(1):23–32.
Dr. Leandro Fioravanti Figueiredo
Cardiologista / Cirurgião Vascular e Geral
CRM MG 53102 / CRM SP 247039
RQE 35112 / 37080 / 65096
Títulos AMB 144415 / 157859 / 245309
Pós-graduação em Direito Processual Civil
Pós-graduação em Direito Médico e Hospitalar
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