Galleri e a promessa de detectar mais de 50 tipos de câncer pelo sangue: o que a ciência mostrou em 2026?
A possibilidade de detectar dezenas de tipos de câncer a partir de uma única amostra de sangue representa uma das fronteiras mais fascinantes da medicina preventiva. O Galleri® tornou-se o principal exemplo dessa nova geração de exames, conhecidos como testes de detecção precoce de múltiplos cânceres, ou MCED — Multi-Cancer Early Detection.
A tecnologia é sofisticada. O conceito é biologicamente plausível. Os estudos demonstram especificidade muito elevada e capacidade de identificar alguns cânceres antes do aparecimento de sintomas.
Mas, em 2026, surgiu uma informação fundamental para compreender o verdadeiro estágio dessa tecnologia: **no ensaio randomizado NHS-Galleri, o teste não atingiu seu desfecho primário de reduzir a incidência de cânceres diagnosticados nos estágios III e IV.**¹
Esse resultado não significa que o Galleri “não funciona”. Significa algo muito mais importante para a medicina baseada em evidências:
ser capaz de detectar sinais de câncer não é necessariamente o mesmo que melhorar o desfecho dos pacientes.
E essa diferença é essencial para entender o presente — e o futuro — dos testes de câncer no sangue.
O que é o Galleri?
O Galleri é um teste de rastreamento desenvolvido para procurar, simultaneamente, sinais associados a mais de 50 tipos de câncer.
Ele pertence à categoria dos testes MCED e utiliza uma estratégia de biópsia líquida.
Tumores podem liberar pequenos fragmentos de material genético na circulação sanguínea. Parte desse material corresponde ao chamado DNA tumoral circulante, ou ctDNA, presente dentro do conjunto maior de DNA livre circulante, o cfDNA.
Entretanto, o Galleri não procura simplesmente uma mutação específica.
Sua tecnologia analisa principalmente padrões de metilação do DNA.
A metilação corresponde a modificações químicas que influenciam a regulação da atividade dos genes. Células tumorais podem apresentar padrões de metilação diferentes dos observados em células normais.
A partir dessas assinaturas moleculares, algoritmos analisam o material encontrado no sangue tentando responder a duas perguntas:
Existe um sinal molecular associado ao câncer?
E, caso exista:
qual é o provável tecido de origem desse sinal?
Essa segunda informação é especialmente importante porque ajuda a direcionar a investigação diagnóstica posterior.
Galleri não diagnostica câncer
Esta é provavelmente a informação mais importante para quem pensa em realizar o exame.
O Galleri é um teste de rastreamento, e não um exame diagnóstico definitivo.
Um resultado positivo significa que foi detectado um sinal molecular que pode estar relacionado à presença de câncer.
A partir daí, inicia-se outra etapa.
Dependendo do provável tecido de origem, o paciente poderá necessitar de tomografia, ressonância magnética, ultrassonografia, endoscopia, colonoscopia, PET-CT ou outros exames.
Caso uma lesão suspeita seja encontrada, a confirmação geralmente dependerá de avaliação anatomopatológica.
Portanto:
Galleri positivo não significa diagnóstico confirmado de câncer.
E um Galleri negativo não significa ausência de câncer
Aqui encontramos uma das principais limitações dessa tecnologia.
No estudo de validação CCGA, a sensibilidade global relatada foi de aproximadamente 51,5%, enquanto a especificidade alcançou aproximadamente 99,5%.³
Mas o dado mais interessante aparece quando analisamos a sensibilidade conforme o estágio da doença.
Ela foi aproximadamente:
16,8% no estágio I
e chegou a:
**90,1% no estágio IV.**³
Essa diferença é biologicamente compreensível.
Tumores maiores e mais avançados tendem a liberar maior quantidade de material tumoral na circulação.
Um câncer extremamente pequeno pode liberar tão pouco DNA tumoral que o sinal simplesmente não é detectado.
Surge então um paradoxo importante:
os cânceres que mais gostaríamos de detectar — aqueles muito pequenos e em estágio inicial — estão entre os mais difíceis de identificar por meio do ctDNA.
Portanto, um resultado negativo não exclui câncer.
Por que a especificidade de 99,5% é tão importante?
A especificidade extremamente elevada é um dos principais pontos fortes dessa tecnologia.
Em um programa de rastreamento aplicado a milhões de pessoas saudáveis, mesmo uma pequena redução da especificidade pode gerar enorme quantidade de resultados falso-positivos.
Os estudos do Galleri demonstraram especificidade consistentemente próxima de 99,5% a 99,6%.¹˒³
Isso significa que a proporção de indivíduos sem câncer que recebem um sinal positivo é relativamente pequena.
Mas existe uma diferença fundamental entre especificidade e valor preditivo positivo.
Se o Galleri vier positivo, qual a chance de realmente existir câncer?
Essa pergunta talvez seja mais relevante para o paciente.
No estudo prospectivo PATHFINDER, 92 participantes apresentaram sinal positivo para câncer.
Após investigação diagnóstica, câncer foi confirmado em 35.
O valor preditivo positivo foi, portanto, de aproximadamente 38%.⁵
Em outras palavras, naquele estudo, mais da metade dos indivíduos com resultado positivo não terminou com um câncer confirmado.
Posteriormente, com versões atualizadas do teste e diferentes populações estudadas, os resultados melhoraram.
No PATHFINDER 2, o valor preditivo positivo relatado alcançou aproximadamente 60,3%.
No NHS-Galleri, variou aproximadamente entre 45,8% e 58%, dependendo da rodada de rastreamento.¹
Isso demonstra uma característica fundamental dos exames de rastreamento:
o desempenho de um teste depende não apenas da tecnologia, mas também da população na qual ele é aplicado.
Idade, prevalência de câncer, fatores de risco e características clínicas influenciam profundamente a probabilidade de um resultado positivo representar doença verdadeira.
O NHS-Galleri mudou a discussão
Durante alguns anos, grande parte da discussão sobre MCED esteve concentrada em perguntas como:
Quantos cânceres o teste consegue encontrar?
Qual sua sensibilidade?
Qual sua especificidade?
Ele consegue prever corretamente o órgão de origem?
Essas perguntas continuam importantes.
Mas o estudo randomizado NHS-Galleri colocou uma pergunta muito mais relevante no centro da discussão:
usar o teste em uma população rastreada realmente reduz a quantidade de câncer diagnosticado em estágio avançado?
O estudo avaliou o Galleri dentro de um ensaio randomizado de grande escala no sistema de saúde britânico.
E o resultado primário foi decepcionante: **não houve redução estatisticamente significativa do desfecho primário de cânceres diagnosticados nos estágios III e IV entre o grupo submetido ao teste e o grupo controle.**¹
Esse resultado merece atenção.
Não porque invalide toda a tecnologia.
Mas porque demonstra uma das regras fundamentais da medicina baseada em evidências:
Um teste pode apresentar excelente desempenho analítico sem necessariamente produzir benefício clínico na população.
Detectar mais câncer não é necessariamente salvar mais vidas
Essa distinção parece contraintuitiva.
Se encontramos o câncer mais cedo, não deveríamos automaticamente reduzir a mortalidade?
Nem sempre.
Existem vários fenômenos epidemiológicos capazes de produzir a impressão de benefício sem necessariamente prolongar a vida.
Um deles é o lead-time bias, ou viés de antecipação diagnóstica.
Imagine que um câncer causaria sintomas aos 67 anos e levaria ao óbito aos 70.
Sem rastreamento, a sobrevida após o diagnóstico seria de três anos.
Agora imagine que um exame detecte exatamente o mesmo câncer aos 62 anos, mas o paciente continue falecendo aos 70.
A sobrevida após o diagnóstico passou aparentemente de três para oito anos.
Mas o paciente não viveu um único dia a mais.
Apenas descobriu a doença cinco anos antes.
É por isso que estudos de rastreamento precisam avaliar desfechos clínicos robustos.
Existe também o problema do sobrediagnóstico
Sobrediagnóstico não significa falso positivo.
No falso positivo, o câncer não existe.
No sobrediagnóstico, o câncer existe — mas talvez jamais provocasse sintomas ou ameaçasse a vida daquele indivíduo.
Alguns tumores possuem comportamento extremamente lento.
Encontrá-los pode iniciar uma cascata de investigação, biópsias, cirurgias e tratamentos que talvez nunca fossem necessários.
Esse problema já é conhecido em diferentes estratégias tradicionais de rastreamento e precisa ser cuidadosamente estudado nos testes MCED.
O que acontece depois de um resultado positivo?
Essa é outra questão fundamental.
O exame não termina quando o laboratório entrega o resultado.
Na verdade, um resultado positivo pode ser apenas o começo de uma jornada diagnóstica.
O paciente pode precisar realizar múltiplos exames de imagem.
Uma alteração inespecífica pode levar a outro exame.
Depois a uma biópsia.
Eventualmente a uma cirurgia diagnóstica.
Se o câncer não for encontrado, permanecem os custos, ansiedade, exposição a radiação e riscos relacionados aos procedimentos.
Por isso, avaliar um teste MCED exige analisar toda a cascata diagnóstica desencadeada por ele.
O Galleri substitui mamografia ou colonoscopia?
Não.
E esse ponto precisa ser enfatizado.
Os testes MCED não substituem os métodos convencionais de rastreamento recomendados para determinados cânceres.
Uma mulher que possui indicação de mamografia continua precisando realizá-la.
Uma pessoa elegível para rastreamento do câncer colorretal continua precisando realizar o método indicado.
O mesmo raciocínio vale para rastreamento cervical com estratégias envolvendo HPV/citologia e para tomografia computadorizada de baixa dose em populações selecionadas de alto risco para câncer pulmonar.
Realizar Galleri e abandonar os rastreamentos convencionais seria uma interpretação equivocada da tecnologia.
Galleri também não é um teste genético hereditário
Outra confusão frequente precisa ser esclarecida.
Existem testes genéticos capazes de procurar variantes germinativas associadas à predisposição hereditária ao câncer.
Esses exames tentam responder:
“eu nasci com uma alteração genética que aumenta meu risco de desenvolver câncer?”
O Galleri procura responder outra pergunta:
“existem atualmente sinais moleculares circulantes compatíveis com a presença de um câncer?”
São perguntas completamente diferentes.
Um teste não substitui o outro.
E o que dizem as sociedades médicas?
A chegada comercial dessas tecnologias ocorreu mais rapidamente do que a consolidação das evidências sobre benefício populacional.
Até o momento, os testes MCED ainda não fazem parte das principais recomendações de rastreamento populacional de rotina.
A orientação publicada por especialistas ligados à American Cancer Society destaca a importância da decisão compartilhada quando pacientes perguntam sobre esses testes, sem abandonar os rastreamentos convencionais recomendados.⁸
Uma revisão sistemática encomendada pela Agency for Healthcare Research and Quality concluiu que ainda faltam estudos controlados demonstrando benefício clínico do rastreamento com MCED e que existem incertezas importantes relacionadas à acurácia, danos e consequências do processo diagnóstico.³
A American Gastroenterological Association também destacou questões ainda não resolvidas envolvendo confirmação diagnóstica, custos e vieses associados ao rastreamento.⁴
Portanto, a postura científica atual não é de rejeição da tecnologia.
É de cautela.
ASCO 2026: o cenário continua semelhante
Uma revisão sistemática apresentada na ASCO 2026 reuniu 20 estudos, totalizando 109.872 participantes, avaliando testes MCED baseados em cfDNA.¹⁰
O padrão encontrado foi semelhante ao observado anteriormente:
especificidade muito elevada, próxima de 99%, mas sensibilidade apenas moderada, especialmente para tumores em estágios iniciais.
E permanece sem demonstração definitiva de redução da mortalidade por câncer.
Isso resume bem o estágio atual da tecnologia.
Conseguimos identificar sinais moleculares impressionantes.
Ainda precisamos demonstrar que utilizá-los como rastreamento fará as pessoas viverem mais.
Então vale a pena fazer Galleri?
Não existe uma resposta universal.
A decisão precisa considerar idade, risco individual de câncer, antecedentes familiares, exposições ambientais, expectativa de vida, capacidade de prosseguir com investigação diagnóstica e compreensão das limitações do exame.
Também existe uma questão de prioridades.
Não faz sentido investir em um teste molecular sofisticado enquanto medidas comprovadamente importantes permanecem negligenciadas.
Antes de pensar em MCED, é fundamental garantir que o indivíduo esteja adequadamente acompanhado em relação aos rastreamentos convencionais indicados, vacinação, tabagismo, obesidade, atividade física, alimentação e demais fatores modificáveis de risco.
Tecnologia sofisticada não substitui prevenção básica bem executada.
Estamos diante do futuro do rastreamento do câncer?
Possivelmente.
Mas talvez ainda não estejamos diante de sua forma definitiva.
O futuro provavelmente não dependerá de um único marcador.
Podemos caminhar para sistemas que combinem simultaneamente:
DNA tumoral circulante;
metilação;
fragmentômica;
RNA;
proteínas;
metabólitos;
imagens;
dados clínicos;
história familiar;
e inteligência artificial.
Essas informações poderão gerar modelos individualizados de risco muito mais sofisticados do que simplesmente recomendar um exame baseado na idade.
A medicina poderá migrar progressivamente de:
“qual exame todas as pessoas de 60 anos devem realizar?”
para:
“qual é o risco biológico específico deste indivíduo e qual estratégia maximiza a probabilidade de detectar precocemente uma doença clinicamente relevante?”
Essa talvez seja a verdadeira revolução.
Conclusão: o Galleri é extraordinário, mas a pergunta mais importante continua sem resposta definitiva
O Galleri demonstra que já conseguimos encontrar no sangue assinaturas moleculares relacionadas a dezenas de tipos diferentes de câncer.
Isso, por si só, representa um avanço tecnológico impressionante.
A especificidade é muito elevada.
O teste consegue sugerir a provável origem de alguns sinais tumorais.
E existe potencial para encontrar cânceres para os quais atualmente não dispomos de rastreamento populacional estabelecido.
Mas existem limitações importantes.
A sensibilidade para câncer em estágio I ainda é baixa.
Resultados positivos exigem investigação.
Resultados negativos não excluem câncer.
Falsos positivos existem.
Sobrediagnóstico permanece uma preocupação.
Os métodos convencionais de rastreamento continuam necessários.
E, sobretudo, o NHS-Galleri **não demonstrou redução significativa do desfecho primário de cânceres diagnosticados em estágio III ou IV.**¹
Portanto, em 2026, talvez a pergunta mais importante sobre o Galleri não seja:
“ele consegue detectar mais de 50 tipos de câncer?”
A resposta para isso é que ele consegue procurar sinais associados a múltiplos cânceres.
A pergunta realmente importante é outra:
Usar esse teste em milhões de pessoas saudáveis reduz a mortalidade por câncer?
Ainda não sabemos.
E somente quando essa resposta estiver disponível poderemos determinar definitivamente qual será o papel dos testes MCED na medicina preventiva.
Referências
- Neal RD, Dolly S, Johnson P, et al. Performance of a multi-cancer early detection test in the randomized controlled NHS-Galleri trial. Nature Medicine. 2026. doi:10.1038/s41591-026-04652-8.
- Robbins HA. Multicancer Early Detection Tests — Keeping a High Bar for Evidence of Benefit. N Engl J Med. 2024;391(4):292-294. doi:10.1056/NEJMp2400297.
- Kahwati LC, Avenarius M, Brouwer L, et al. Multicancer Detection Tests for Screening: A Systematic Review. Ann Intern Med. 2025. doi:10.7326/ANNALS-25-01877.
- Shaukat A, Ladabaum U, Kanth P, Lieberman D. AGA Clinical Practice Update on Current Role of Blood Tests for Colorectal Cancer Screening: Commentary. Clin Gastroenterol Hepatol. 2025;23(9):1486-1491. doi:10.1016/j.cgh.2025.04.003.
- Schrag D, Beer TM, McDonnell CH, et al. Blood-Based Tests for Multicancer Early Detection (PATHFINDER): A Prospective Cohort Study. Lancet. 2023;402(10409):1251-1260. doi:10.1016/S0140-6736(23)01700-2.
- Wan JCM, Sasieni P, Rosenfeld N. Promises and pitfalls of multi-cancer early detection using liquid biopsy tests. Nat Rev Clin Oncol. 2025;22(8):566-580. doi:10.1038/s41571-025-01033-x.
- Marinac CR, Rebbeck TR, O’Donnell EK. Some answers, more questions for multi-cancer early detection tests. Nature Medicine. 2026. doi:10.1038/s41591-026-04688-w.
- Hoffman RM, Wolf AMD, Raoof S, et al. Multicancer Early Detection Testing: Guidance for Primary Care Discussions With Patients. Cancer. 2025;131(7):e35823. doi:10.1002/cncr.35823.
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- Prajapati H, Mody M, Kakadiya J, et al. Potential and pragmatism: Clinical and public health implications of multi-cancer early detection (MCED) screening via cfDNA in asymptomatic adults. J Clin Oncol. 2026;44(Suppl 16):e22570. doi:10.1200/JCO.2026.44.16_suppl.e22570.
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