O paradoxo dos congressos médicos: estamos realmente aprendendo ou apenas acompanhando tudo?

Nunca tivemos acesso tão rápido à ciência. O desafio agora é transformar informação em conhecimento — antes de transformá-la em conduta.

Congresso cheio. Agenda lotada. Três sessões interessantes acontecendo simultaneamente. No celular, dezenas de mensagens, fotos de slides, resumos de estudos recém-apresentados, comentários de especialistas e discussões nas redes sociais.

Um grande ensaio clínico termina de ser apresentado.

Em poucos minutos, o hazard ratio já está no X, no Instagram, no WhatsApp e nos grupos médicos. Antes mesmo de sairmos do auditório, alguém pergunta:

“Isso já muda a prática?”

No fim do dia, assistimos a seis palestras, salvamos 30 slides, compartilhamos cinco estudos e voltamos para o hotel com a sensação de estarmos completamente atualizados.

Mas existe uma pergunta incômoda:

quanto realmente entendemos?

Essa é a provocação feita pelo cardiologista e professor da Universidade de Pádua Francesco Tona em seu recente artigo na Circulation, intitulado Congress Paradox: Are We Learning or Performing? O texto foi publicado no fim de setembro de 2026 e questiona não a importância dos congressos, mas a maneira como passamos a consumir ciência dentro deles.  

E talvez seja uma discussão necessária para toda a medicina contemporânea.


Nunca tivemos tanta informação

Há poucas décadas, acompanhar um congresso internacional significava estar fisicamente presente.

Quem não estivesse lá teria acesso aos resultados posteriormente, talvez por meio de uma publicação científica, uma revista especializada ou pelo relato de algum colega.

Hoje acontece exatamente o contrário.

Uma apresentação começa em Londres, Barcelona ou Chicago e, poucos minutos depois, seus principais resultados estão circulando pelo mundo.

O médico pode acompanhar um congresso inteiro praticamente em tempo real.

Isso é extraordinário.

A democratização do conhecimento científico talvez seja uma das maiores transformações positivas da medicina recente.

Mas criou um problema novo:

acesso à informação deixou de ser o principal gargalo.

Agora o gargalo é outro.

Nossa capacidade de processá-la.


Ver não significa compreender

Tona resume o problema em uma ideia extremamente simples:

estar presente não é a mesma coisa que compreender.

O autor descreve um ambiente acadêmico no qual exposição científica constante, comunicação rápida e sobrecarga cognitiva disputam nossa limitada capacidade de atenção. Sua provocação é que maior exposição não necessariamente produz compreensão mais profunda.  

Isso vale para o congresso presencial.

Mas vale ainda mais para o congresso conectado às redes sociais.

Durante uma apresentação, podemos simultaneamente:

assistir ao palestrante;

fotografar o slide;

publicar uma imagem;

responder mensagens;

acompanhar comentários de outros especialistas;

ler um resumo do estudo;

e já discutir suas implicações clínicas.

Estamos recebendo muita informação.

Mas informação não é sinônimo de conhecimento.

E conhecimento não é necessariamente compreensão.


O perigoso caminho entre o slide e a prescrição

Imagine um grande estudo apresentado em um congresso.

O slide mostra:

HR 0,72; IC95% 0,61–0,85; p<0,001.

Excelente.

O grupo tratado apresentou redução de aproximadamente 28% no risco relativo daquele desfecho.

A fotografia circula.

Surge a manchete:

“Novo tratamento reduz eventos em 28%.”

Poucas horas depois, começa a discussão sobre incorporar a estratégia à prática.

Mas ainda faltam algumas perguntas.

Quem eram os pacientes?

Qual era o risco absoluto?

Qual foi o desfecho primário?

Era mortalidade ou um composto?

Quais componentes realmente impulsionaram o resultado?

Qual foi o NNT?

Quanto tempo durou o acompanhamento?

Houve crossover?

Quantos abandonaram o tratamento?

Existiram diferenças nos eventos adversos?

O estudo foi interrompido precocemente?

O desfecho era clínico ou substituto?

A análise apresentada era pré-especificada?

E, talvez mais importante:

o paciente sentado diante de mim se parece com os pacientes daquele estudo?

Nada disso cabe confortavelmente em uma fotografia de slide.


O problema não é o resumo. É parar nele.

Um bom resumo científico é extremamente útil.

Ele permite que médicos acompanhem dezenas de estudos sem precisar ler imediatamente centenas de páginas.

O problema começa quando confundimos:

“eu sei o resultado”

com

“eu entendi o estudo”.

São coisas diferentes.

Saber que determinada intervenção produziu HR 0,75 é informação.

Compreender por que aquele resultado ocorreu, qual sua magnitude absoluta, suas limitações, a população estudada e sua aplicabilidade clínica exige análise.

E isso demanda algo que se tornou raro:

tempo.


A ciência ficou rápida. Nosso cérebro não.

Existe um limite cognitivo para quantas informações conseguimos processar adequadamente.

Um congresso moderno pode oferecer centenas ou milhares de apresentações.

Nenhum médico consegue estudar profundamente tudo.

Ainda assim, o ambiente digital cria a sensação de que deveríamos acompanhar tudo.

Abrem-se várias sessões simultaneamente.

Salvamos PDFs.

Fotografamos QR codes.

Marcamos artigos para ler depois.

Seguimos dezenas de especialistas comentando o congresso.

No final, acumulamos informação em uma velocidade muito superior à nossa capacidade de consolidá-la.

Talvez tenhamos trocado um problema antigo — não conseguir acesso à informação — por um problema novo:

não conseguir selecionar aquilo que merece nossa atenção.


E então entra o algoritmo

Existe ainda uma segunda camada.

Boa parte do congresso chega até nós pelas redes sociais.

E uma rede social não foi desenhada para selecionar o estudo metodologicamente mais importante.

Ela seleciona aquilo que gera atenção.

Resultados positivos.

Números impressionantes.

Conclusões provocativas.

Slides visualmente interessantes.

Frases fortes.

Controvérsias.

Isso significa que repercussão científica e qualidade científica não são necessariamente a mesma coisa.

Um estudo negativo metodologicamente impecável pode ensinar mais do que uma análise secundária positiva.

Mas qual deles provavelmente terá mais compartilhamentos?

Sabemos a resposta.


O “estudo do congresso” ainda não é necessariamente o artigo

Essa distinção é fundamental.

Resultados apresentados em congressos frequentemente chegam ao público antes da publicação completa do manuscrito.

Nesse momento, temos acesso limitado aos métodos e às análises.

O abstract pode informar o resultado principal.

Os slides acrescentam detalhes.

A entrevista com o investigador fornece contexto.

Mas somente a publicação completa permite examinar adequadamente questões como protocolo, critérios de inclusão e exclusão, adjudicação de eventos, análise estatística, perdas de seguimento, subgrupos e limitações.

Portanto, uma regra simples ajuda bastante:

apresentação de congresso serve para conhecer o estudo.

O artigo completo serve para começar a julgá-lo.


Leia primeiro os métodos

Existe um hábito curioso na leitura científica.

Abrimos um artigo e imediatamente procuramos a conclusão.

Talvez devêssemos fazer quase o contrário.

Antes de nos apaixonarmos pelo resultado, precisamos entender como ele foi produzido.

Pergunte:

Qual era a pergunta do estudo?

Quem entrou?

Quem ficou de fora?

Qual foi o comparador?

Qual foi o desfecho primário?

Por quanto tempo os pacientes foram acompanhados?

Como foram tratados crossover e perdas de seguimento?

O estudo possuía poder estatístico para responder àquela pergunta?

Depois disso, olhamos para os resultados.

E somente então chegamos à discussão.

Essa ordem protege contra algo extremamente humano:

deixar que uma conclusão interessante determine como interpretaremos todo o restante.


Risco relativo impressiona. Risco absoluto contextualiza.

Congressos adoram números simples.

“Redução de 35%.”

“Queda de 42%.”

“50% menos eventos.”

Mas imagine:

evento em 2% no grupo controle e 1% no tratamento.

A redução relativa é de 50%.

A redução absoluta é de apenas 1 ponto percentual.

Agora imagine:

40% versus 20%.

Também temos redução relativa de 50%.

Mas o impacto clínico é completamente diferente.

É por isso que, sempre que possível, deveríamos procurar:

risco absoluto;

redução absoluta de risco;

NNT;

tempo de acompanhamento.

O hazard ratio continua sendo importante.

Só não conta a história inteira.


Cuidado com os desfechos compostos

Outra pergunta que deveria surgir quase automaticamente ao vermos um estudo positivo é:

“O que exatamente aconteceu menos?”

Imagine um desfecho composto de:

morte cardiovascular + infarto + internação + procedimento.

O resultado é positivo.

Ótimo.

Mas suponha que não tenha ocorrido diferença em mortalidade nem em infarto e praticamente todo o benefício tenha vindo de menos procedimentos.

O estudo continua podendo ser clinicamente importante.

Mas sua interpretação é completamente diferente de dizer:

“O tratamento reduziu morte e infarto.”

Parece óbvio quando escrevemos dessa maneira.

Mesmo assim, conclusões assim se perdem facilmente entre o palco do congresso e o feed do celular.


Subgrupos: onde todo congresso encontra uma manchete

Quando o resultado primário não é tão empolgante, existe sempre uma tentação:

procurar subgrupos.

Homens.

Mulheres.

Diabéticos.

Não diabéticos.

Idosos.

Jovens.

Função renal normal.

Função renal reduzida.

Quanto mais análises fazemos, maior a possibilidade de alguma associação aparecer simplesmente pelo acaso.

Isso não significa ignorar subgrupos.

Significa tratá-los pelo que muitas vezes são:

geradores de hipóteses.

Um gráfico de floresta cheio de linhas não deveria automaticamente gerar dez novas condutas clínicas.


O problema dos desfechos substitutos

Francesco Tona já havia levantado uma preocupação semelhante em outro artigo de 2026, publicado no JACC: Asia, discutindo como escolhas de desenho, desfechos substitutos e interpretação seletiva podem transformar incerteza científica em uma aparência de certeza.  

Reduzir LDL é importante.

Reduzir pressão arterial é importante.

Melhorar um marcador de imagem pode ser importante.

Mas biomarcadores e outros desfechos intermediários não são automaticamente equivalentes a:

viver mais;

ter menos infarto;

ter menos AVC;

ser menos hospitalizado;

ou viver melhor.

Precisamos perguntar sempre:

qual desfecho realmente importa para o paciente?


E a indústria?

Congressos médicos modernos dificilmente existiriam na escala atual sem algum grau de interação com a indústria.

Medicamentos, dispositivos, métodos diagnósticos e tecnologias que transformaram a medicina surgiram, em grande parte, dessa interação entre universidade, pesquisadores, hospitais e empresas.

Portanto, demonizar essa relação seria simplista.

O problema é outro:

conflitos de interesse precisam ser transparentes.

Tona defende justamente maior transparência nessas relações e uma cultura científica capaz de distinguir divulgação, educação, evidência e promoção.

O objetivo não é desconfiar automaticamente de um estudo financiado pela indústria.

É conhecer o financiamento, entender o desenho e avaliar os dados com o mesmo rigor.


Congresso também virou palco

Existe outra provocação interessante no título do artigo:

Are We Learning or Performing?

Estamos aprendendo ou performando?

Os congressos sempre tiveram uma dimensão social.

Encontramos colegas.

Criamos colaborações.

Apresentamos trabalhos.

Conhecemos pesquisadores.

Construímos nossa carreira acadêmica.

Nada disso é errado.

O problema aparece quando a visibilidade começa a competir com o aprendizado.

Fotografar o slide torna-se mais importante do que entendê-lo.

Publicar que estamos naquela sessão substitui refletir sobre o que foi apresentado.

Comentar rapidamente o estudo passa a ser mais valorizado do que dizer:

“Ainda preciso ler o artigo antes de formar uma opinião.”

Talvez esta última seja, paradoxalmente, uma das frases mais científicas que podemos dizer.


Existe coragem científica em dizer “não sei ainda”

A medicina contemporânea valoriza respostas rápidas.

O congresso apresenta um resultado pela manhã.

À tarde queremos saber:

“Vai mudar a diretriz?”

Talvez.

Mas não precisamos responder imediatamente.

Ciência possui uma característica incompatível com redes sociais:

ela precisa de tempo.

Tempo para publicação.

Tempo para revisão.

Tempo para crítica.

Tempo para replicação.

Tempo para descobrir efeitos adversos.

Tempo para perceber se determinado resultado realmente modifica desfechos importantes.

Isso não significa resistir à inovação.

Significa diferenciar:

novidade

de

evidência madura.


O congresso continua sendo extraordinariamente importante

Nada dessa discussão significa que congressos perderam sua função.

Muito pelo contrário.

Eles continuam sendo espaços extraordinários de:

aprendizado;

troca de experiências;

networking;

colaboração científica;

discussão de casos;

formação de pesquisadores;

e exposição precoce a novas ideias.

A proposta de Tona não é abandonar congressos, mas repensar como aprendemos neles. Seu ponto central é criar mais espaço para avaliação crítica, reflexão e intercâmbio científico significativo, em vez de simplesmente maximizar exposição a informações.  

Em outras palavras:

não precisamos assistir a mais sessões. Talvez precisemos compreender melhor algumas delas.


Um método simples para o próximo congresso

Talvez possamos transformar essa reflexão em uma estratégia prática.

Em vez de tentar acompanhar tudo, escolha alguns estudos realmente relevantes para sua prática.

Durante o congresso:

entenda a pergunta;

observe o desenho;

anote o resultado principal;

identifique as principais limitações;

e resista à necessidade de decidir imediatamente se aquilo “muda tudo”.

Depois do congresso:

procure o manuscrito completo;

leia os métodos;

analise risco absoluto e relativo;

observe os componentes dos desfechos compostos;

avalie segurança;

compare com estudos anteriores;

e pergunte se a população estudada corresponde aos seus pacientes.

Só depois faça a pergunta final:

isso muda minha prática?


Da informação para o conhecimento

Talvez possamos imaginar quatro etapas:

NOVO → INTERESSANTE → VÁLIDO → APLICÁVEL

O congresso é excelente para descobrir o que é novo.

Uma boa apresentação nos mostra o que é interessante.

A leitura crítica ajuda a determinar se é válido.

E somente a integração com o restante das evidências e com as características do paciente permite decidir se é aplicável.

O problema surge quando pulamos diretamente:

NOVO → PRESCRIÇÃO.

É justamente esse atalho que precisamos evitar.


O médico do futuro talvez precise aprender a consumir menos

Vivemos uma situação paradoxal.

Nunca tivemos tantos artigos.

Nunca tivemos tantos congressos.

Nunca tivemos tantas diretrizes.

Nunca tivemos tantos podcasts, newsletters, vídeos e resumos científicos.

E talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir aquilo que realmente merece mudar nossa prática.

A solução provavelmente não será consumir ainda mais conteúdo.

Será desenvolver filtros melhores.

Tona já havia feito crítica semelhante em outro texto, ao argumentar que a cardiologia contemporânea corre o risco de trocar curiosidade e julgamento clínico por capacidade tecnológica e decisões automatizadas. A pergunta “podemos fazer?” não deveria substituir “por que estamos fazendo?”.  

Essa reflexão também se aplica à educação médica.

A pergunta não deveria ser apenas:

“Você viu aquele estudo?”

Mas:

“Você entendeu aquele estudo?”


Menos highlights. Mais ciência.

Resumos são úteis.

Newsletters são úteis.

Podcasts são úteis.

Threads são úteis.

Este próprio artigo é um resumo de uma reflexão publicada por outro autor.

Nada disso substitui a fonte original.

Essas ferramentas deveriam funcionar como portas de entrada para o conhecimento, e não como ponto final.

Portanto, quando você encontrar aquele estudo que promete mudar a cardiologia:

leia o resumo;

veja os comentários;

salve o slide;

discuta com os colegas.

Mas depois abra o artigo.

Leia os métodos.

Veja quem foi estudado.

Observe quem ficou de fora.

Analise o tamanho real do benefício.

Procure os eventos adversos.

Leia as limitações.

E só então pergunte:

“O que esses dados realmente me permitem concluir?”

Porque talvez o grande desafio da medicina atual já não seja conseguir acompanhar a ciência.

É conseguir pensar criticamente sobre ela antes de levá-la ao paciente.

E, no próximo congresso, talvez valha lembrar a provocação deixada por Francesco Tona:

estar presente não é o mesmo que compreender.  

Referência principal

Tona F. Congress Paradox: Are We Learning or Performing? Circulation. 2026;154(13):1168-1169. Publicado em 28 de setembro de 2026.  

⁠Artigo na Circulation

Como leitura complementar, vale também o artigo de Tona sobre interpretação de ensaios clínicos e persuasão científica, publicado no JACC: Asia em abril de 2026.  

⁠Clinical Trials Between Truth and Persuasion — JACC: Asia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog