Sarcopenia e caquexia: quando perder peso significa perder saúde

Perder peso é sempre algo positivo?

Definitivamente, não.

Duas pessoas podem perder exatamente 10 kg e apresentar consequências completamente diferentes. Uma pode ter reduzido predominantemente gordura corporal, preservando músculos e melhorando sua saúde metabólica. A outra pode ter perdido quantidade importante de massa muscular, força e capacidade funcional.

É por isso que, na medicina, peso corporal e composição corporal não são sinônimos.

E essa diferença tornou-se ainda mais importante com o envelhecimento da população, o aumento da obesidade e a popularização de tratamentos capazes de produzir grandes perdas ponderais.

Dois conceitos merecem atenção especial: sarcopenia e caquexia.

Embora possam ocorrer simultaneamente, não são a mesma doença.  

O que é sarcopenia?

Sarcopenia é uma doença muscular caracterizada principalmente pela perda de força e função muscular, geralmente acompanhada de redução da quantidade ou qualidade do músculo.

Durante muito tempo, imaginava-se que bastava demonstrar pouca massa muscular para diagnosticar sarcopenia.

Hoje sabemos que isso é insuficiente.

O consenso europeu EWGSOP2 colocou a força muscular no centro da avaliação.

Na prática, não basta perguntar:

“Quanto músculo esse paciente tem?”

Também precisamos perguntar:

“Esse músculo funciona?”

Uma pessoa pode apresentar redução da massa muscular, mas a repercussão clínica torna-se particularmente relevante quando aparecem perda de força, dificuldade para levantar-se, redução da velocidade de marcha, quedas ou comprometimento das atividades cotidianas.

Sarcopenia não acontece somente em idosos

O envelhecimento é uma das principais causas, mas não é a única.

Existe a chamada sarcopenia primária, predominantemente relacionada à idade, e a sarcopenia secundária, associada a fatores como:

  • sedentarismo e imobilização;
  • ingestão inadequada de proteínas e energia;
  • doenças crônicas;
  • câncer;
  • insuficiência cardíaca;
  • doenças pulmonares;
  • doenças renais;
  • processos inflamatórios prolongados.

O músculo é um tecido metabolicamente ativo e responde continuamente à alimentação, atividade física, hormônios, inflamação e estímulos neurológicos.

Quando o equilíbrio entre síntese e degradação proteica se desloca persistentemente para o lado errado, a massa muscular começa a desaparecer.

O que acontece com nossos músculos à medida que envelhecemos?

A sarcopenia relacionada ao envelhecimento não resulta de um único mecanismo.

Existe redução progressiva da resposta anabólica do músculo aos aminoácidos e ao exercício, fenômeno conhecido como resistência anabólica.

Além disso, podem ocorrer perda de neurônios motores, alterações da junção neuromuscular, redução de unidades motoras, disfunção mitocondrial, alterações hormonais e menor atividade física.

As fibras musculares rápidas, conhecidas como fibras tipo II, são particularmente afetadas.

O resultado não é apenas um braço ou uma perna aparentemente mais fina.

O resultado pode ser:

menos força → menor mobilidade → menor atividade física → maior perda muscular.

Forma-se um círculo vicioso.

E o que é caquexia?

A caquexia é diferente.

Trata-se de uma síndrome metabólica complexa provocada por uma doença subjacente, caracterizada principalmente por perda muscular, que pode ocorrer com ou sem redução da gordura corporal.

Ela pode surgir em doenças como câncer, insuficiência cardíaca avançada, doença renal, DPOC e determinadas doenças infecciosas ou inflamatórias.

Um consenso clássico define a caquexia como uma síndrome associada a doença e caracterizada pela perda muscular, frequentemente acompanhada por anorexia, inflamação, resistência à insulina e aumento da degradação proteica.  

No câncer, por exemplo, o consenso internacional destaca que a perda muscular da caquexia não é completamente revertida apenas pelo suporte nutricional convencional.  

Essa característica é fundamental.

Caquexia não é simplesmente “comer pouco”

Imagine dois pacientes perdendo peso.

O primeiro está ingerindo poucas calorias. Ao corrigirmos sua alimentação, o balanço energético melhora e existe possibilidade de recuperação.

No segundo, existe uma doença produzindo intensa sinalização inflamatória e alterações metabólicas que aceleram o catabolismo.

Nesse caso, simplesmente colocar mais comida no prato pode não resolver o problema.

É justamente aí que começa uma das diferenças fundamentais entre desnutrição e caquexia.

A caquexia envolve alterações metabólicas produzidas pela própria doença.

O músculo entra em estado catabólico

Na caquexia, mediadores inflamatórios como IL-6 e TNF-α participam de uma cascata capaz de alterar profundamente o metabolismo muscular.

Vias intracelulares envolvendo NF-κB, FOXO e outros sistemas reguladores favorecem mecanismos de degradação proteica.

Entre eles está o sistema ubiquitina-proteassoma, uma espécie de mecanismo celular responsável pela identificação e degradação de determinadas proteínas.

A autofagia também participa desse processo.

O resultado final é preocupante:

degradação proteica ↑
síntese proteica ↓
massa muscular ↓
força ↓
capacidade funcional ↓

Na caquexia, essa perda pode ser muito mais rápida do que na sarcopenia associada ao envelhecimento. Revisões recentes também destacam maior componente inflamatório na caquexia e diferenças no padrão de comprometimento das fibras musculares.  

O tecido adiposo também pode ser consumido

A caquexia não destrói apenas músculo.

Existe também aumento da mobilização das reservas adiposas.

A lipólise aumenta, liberando ácidos graxos armazenados nos adipócitos.

Em determinados estados catabólicos, portanto, o organismo pode perder simultaneamente:

gordura + músculo + peso corporal + capacidade funcional.

Essa situação é completamente diferente do objetivo de um tratamento adequado da obesidade, no qual desejamos reduzir predominantemente tecido adiposo preservando o máximo possível de massa muscular.

Qual é, então, a diferença entre sarcopenia e caquexia?

Uma forma simples de compreender é esta:

Sarcopenia: o problema central é o músculo e sua função.

Caquexia: existe uma doença sistêmica produzindo um estado catabólico que leva à perda muscular e frequentemente também à perda de gordura e peso.

As duas condições podem coexistir.

Um idoso com insuficiência cardíaca avançada, por exemplo, pode apresentar sarcopenia relacionada à idade e, simultaneamente, desenvolver caquexia relacionada à própria doença cardiovascular.

É justamente essa sobreposição que torna o diagnóstico desafiador.

Existe ainda uma terceira condição: desnutrição

Sarcopenia, caquexia e desnutrição não devem ser utilizadas como sinônimos.

Na desnutrição, existe deficiência de nutrientes ou energia capaz de alterar composição corporal e função.

Na sarcopenia, o foco está na perda de força e desempenho muscular associada à alteração muscular.

Na caquexia, existe uma doença produzindo um estado metabólico e catabólico complexo.

E o mesmo paciente pode apresentar mais de uma dessas condições.

A American Heart Association chamou atenção para esse problema em um novo posicionamento científico publicado em 2026. Segundo o documento, a desnutrição permanece frequente e subdiagnosticada entre pacientes hospitalizados com doenças cardiovasculares, e as estimativas de prevalência em pacientes hospitalizados variam amplamente, aproximadamente entre 20% e 60%, dependendo da população e dos critérios empregados.  

E a caquexia cardíaca?

Esse é um tema particularmente importante na cardiologia.

Pacientes com insuficiência cardíaca avançada podem desenvolver alterações que favorecem perda de peso e massa muscular.

Entre os mecanismos envolvidos estão inflamação sistêmica, ativação neuro-hormonal, alterações do metabolismo, anorexia, redução da perfusão gastrointestinal, congestão intestinal e redução da atividade física.

Forma-se novamente um círculo vicioso:

insuficiência cardíaca → menor atividade → perda muscular → menor capacidade funcional → ainda menos atividade.

Quando existe caquexia, adiciona-se um componente catabólico sistêmico a esse processo.

Por isso, observar perda ponderal progressiva em um paciente com insuficiência cardíaca não deve ser automaticamente comemorado como “emagrecimento”.

Pode ser um sinal de pior evolução clínica.

A própria AHA passou a enfatizar em 2026 a necessidade de rastreamento nutricional e intervenção precoce nos pacientes cardiovasculares de risco.  

Existe obesidade e sarcopenia ao mesmo tempo?

Sim.

E esse é um dos conceitos mais importantes.

Uma pessoa pode ter excesso de gordura corporal e, simultaneamente, apresentar pouca massa e função muscular.

É a chamada obesidade sarcopênica.

Isso significa que olhar apenas para o IMC pode esconder parte importante da situação.

Imagine dois indivíduos com 90 kg.

Um possui grande quantidade de massa muscular.

Outro apresenta grande quantidade de tecido adiposo e pouca massa muscular.

A balança mostra o mesmo número.

Fisiologicamente, são organismos completamente diferentes.

Por que isso se tornou ainda mais importante na era dos medicamentos para obesidade?

Medicamentos modernos para obesidade podem produzir reduções ponderais expressivas.

Isso é uma enorme evolução terapêutica, mas também torna relevante acompanhar o que está sendo perdido junto com o peso.

Toda perda ponderal substancial pode envolver alguma redução de massa magra.

Por isso, especialmente em idosos ou indivíduos vulneráveis, o objetivo não deveria ser simplesmente atingir o menor número possível na balança.

O objetivo deve ser melhorar a composição corporal e a saúde metabólica preservando força e funcionalidade.

Isso reforça a importância de exercício resistido, alimentação adequada, atenção à ingestão proteica e acompanhamento individualizado durante perdas ponderais significativas.

Como saber se alguém está perdendo músculo?

A avaliação pode envolver diferentes ferramentas.

A força de preensão palmar pode ser medida por dinamometria.

Testes como levantar-se repetidamente de uma cadeira fornecem informações sobre força e desempenho dos membros inferiores.

Velocidade da marcha e outros testes funcionais ajudam a identificar comprometimento físico.

A composição corporal pode ser estimada por métodos como bioimpedância e DXA, enquanto tomografia e ressonância podem fornecer informações detalhadas em situações específicas.

Mas existe uma informação extremamente simples:

observe o que o paciente consegue fazer.

Uma pessoa que perdeu peso e passou a apresentar dificuldade para levantar da cadeira, subir escadas, caminhar ou carregar objetos merece avaliação.

O tratamento também é diferente

Na sarcopenia, o treinamento resistido ocupa papel central.

É necessário oferecer ao músculo um estímulo para permanecer — ou voltar a crescer.

Nutrição e ingestão proteica adequadas também são importantes, sempre individualizadas conforme idade, função renal, doenças associadas e condição clínica.

Na caquexia, entretanto, apenas oferecer calorias pode não ser suficiente.

É necessário tratar, sempre que possível, a doença responsável pelo estado catabólico, ao mesmo tempo em que se abordam nutrição, sintomas, atividade física e demais fatores modificáveis.

No contexto cardiovascular, a AHA recomenda avaliação nutricional estruturada e destaca a importância de intervenções nutricionais individualizadas. Para caquexia cardíaca, o documento cita como objetivo geral ingestão proteica em torno de 1–1,2 g/kg/dia, embora a prescrição precise considerar as características e limitações de cada paciente.  

A balança conta apenas parte da história

Talvez essa seja a mensagem mais importante.

Quando alguém diz:

“Perdi 10 quilos.”

A pergunta médica seguinte deveria ser:

“Perdeu 10 quilos de quê?”

Água?

Gordura?

Músculo?

Ou uma combinação desses componentes?

Porque emagrecer e adoecer podem produzir exatamente o mesmo número na balança.

A diferença está na composição corporal, na força, na funcionalidade e no mecanismo responsável pela perda.

Por isso, principalmente em idosos, pacientes oncológicos, pessoas com insuficiência cardíaca ou renal e indivíduos submetidos a grandes perdas ponderais, preservar músculo deve fazer parte do objetivo terapêutico.

O melhor emagrecimento não é necessariamente aquele que produz a maior queda na balança. É aquele que reduz o excesso de gordura preservando músculo, força e capacidade funcional.

Referências

Vest AR, DiDomenico RJ, Lichtenstein L, et al. Malnutrition and Cachexia in Inpatients With Acute Cardiac Conditions: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2026;153:e1078-e1105.  

Papadopoulos E, Irving BA, Brown JC, et al. Sarcopenia and Cachexia in Older Patients with Cancer: Pathophysiology, Diagnosis, Impact on Outcomes, and Management Strategies. Drugs & Aging. 2025;42:1113–1142.  

Evans WJ, Morley JE, Argilés J, et al. Cachexia: a new definition. Clinical Nutrition. 2008;27:793–799.  

Fearon K, Strasser F, Anker SD, et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. Lancet Oncology. 2011.  

Dr. Leandro Fioravanti Figueiredo
Cardiologista / Cirurgião Vascular e Geral
CRM MG 53102 / CRM SP 247039
RQE 35112 / 37080 / 65096
Títulos AMB 144415 / 157859 / 245309
Pós-graduação em Direito Processual Civil
Pós-graduação em Direito Médico e Hospitalar

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