SARMs, Ostarina, Ligandrol e RAD-140: Funcionam para Ganhar Massa Muscular? Riscos e Evidências
Meta description: SARMs como ostarina, ligandrol (LGD-4033) e RAD-140 realmente aumentam massa muscular? Entenda o que mostram os estudos, os riscos para fígado, coração e testosterona e por que essas substâncias não são consideradas seguras para uso estético.
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SARMs funcionam para ganhar massa muscular?
Sim, alguns SARMs conseguem aumentar a massa corporal magra. Mas essa resposta precisa ser acompanhada de uma informação fundamental: aumentar massa magra não significa necessariamente aumentar força, melhorar o desempenho no treino ou produzir benefício funcional.
Os SARMs — Selective Androgen Receptor Modulators ou moduladores seletivos do receptor androgênico — tornaram-se populares entre praticantes de musculação e fisiculturismo justamente pela promessa de produzir efeitos anabólicos semelhantes aos dos andrógenos, porém com menos efeitos colaterais.
Entre os nomes mais conhecidos estão:
Ostarina (MK-2866 ou enobosarm);
Ligandrol (LGD-4033);
RAD-140 (testolone).
Embora apresentem atividade farmacológica real, nenhum SARM é aprovado pela FDA para ganho de massa muscular ou melhora da performance esportiva.
E a ideia de que seriam uma alternativa “segura” aos esteroides anabolizantes não encontra respaldo suficiente nas evidências atuais.
O que são SARMs?
Os SARMs são moléculas que se ligam ao receptor androgênico.
É o mesmo receptor envolvido em grande parte dos efeitos da testosterona sobre tecidos como músculos e ossos.
A proposta original era extremamente interessante do ponto de vista farmacológico: desenvolver medicamentos capazes de estimular preferencialmente músculo e tecido ósseo, reduzindo os efeitos androgênicos sobre outros órgãos.
Isso poderia, teoricamente, ser útil no tratamento de condições como sarcopenia, perda muscular associada a doenças crônicas e outras situações caracterizadas por redução importante de massa magra.
O problema é que a seletividade não é absoluta.
Os efeitos dos SARMs não permanecem restritos ao músculo.
Podem ocorrer alterações hormonais, hepáticas, cardiovasculares e metabólicas.
Ostarina realmente funciona?
A ostarina, também conhecida como enobosarm ou MK-2866, está entre os SARMs mais estudados.
Ensaios clínicos demonstraram aumento de massa corporal magra em determinadas populações.
Isso confirma que a substância possui atividade anabólica.
Entretanto, os resultados sobre força muscular e função física são muito menos consistentes.
Essa diferença é crucial.
Um indivíduo pode apresentar aumento da massa magra mensurada por métodos de composição corporal sem necessariamente apresentar melhora equivalente de força ou desempenho.
Portanto, afirmar simplesmente que “ostarina funciona” é uma simplificação.
Funciona para qual desfecho?
Para aumentar massa magra existem sinais de eficácia.
Para melhorar de forma consistente força, função e desempenho esportivo, as evidências são consideravelmente menos convincentes.
Ligandrol (LGD-4033) aumenta massa muscular?
O ligandrol, conhecido como LGD-4033, também apresentou capacidade de aumentar massa magra em estudos clínicos.
Novamente, entretanto, o aumento de massa não deve ser interpretado automaticamente como melhora de performance.
Além disso, a utilização recreativa pode envolver doses e períodos de exposição diferentes daqueles avaliados em pesquisas clínicas.
Esse é um dos maiores problemas quando resultados científicos são utilizados para justificar os chamados “ciclos de SARMs”.
Uma dose estudada em ambiente controlado não permite concluir que doses maiores utilizadas para fins estéticos sejam igualmente seguras.
RAD-140 funciona?
O RAD-140, também chamado testolone, tornou-se extremamente popular no mercado paralelo.
É frequentemente divulgado como um potente agente para aumento de massa muscular.
Entretanto, a popularidade do RAD-140 no ambiente fitness é muito maior do que a quantidade de evidências clínicas robustas disponíveis para justificar seu uso recreativo.
Esse é um princípio importante da medicina baseada em evidências:
atividade farmacológica não é sinônimo de segurança clínica.
Uma substância pode estimular receptores androgênicos e produzir efeitos anabólicos sem possuir uma relação benefício-risco aceitável para pessoas saudáveis que desejam apenas melhorar sua aparência ou desempenho esportivo.
SARMs aumentam força?
Essa talvez seja uma das maiores confusões sobre essas substâncias.
Hipertrofia, força e performance não são exatamente a mesma coisa.
A força muscular depende de massa muscular, mas também de recrutamento neuromuscular, arquitetura das fibras, técnica, adaptação ao treinamento, recuperação, nutrição e diversos outros fatores.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 avaliou ensaios clínicos randomizados envolvendo SARMs e desempenho físico.
Os resultados foram variáveis e, de maneira geral, os benefícios sobre performance foram modestos e inconsistentes.
Portanto, não existe evidência robusta para afirmar que SARMs sejam uma estratégia comprovada para melhorar o rendimento nos treinos.
SARMs diminuem a testosterona?
Podem diminuir.
Apesar do termo “seletivo”, essas moléculas continuam produzindo sinalização androgênica.
O organismo possui sofisticados mecanismos de feedback hormonal.
Quando existe sinalização androgênica externa, pode ocorrer redução da atividade do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Como consequência, a produção endógena de testosterona pode diminuir.
Portanto, a ideia disseminada na internet de que SARMs não interferem significativamente na produção hormonal natural é equivocada.
SARMs fazem mal ao fígado?
Existe preocupação relevante com hepatotoxicidade.
Elevação das enzimas hepáticas está entre os eventos adversos descritos, e existem relatos de lesões hepáticas associadas ao consumo de SARMs, incluindo padrões hepatocelulares e colestáticos.
Esse problema pode ser ainda maior no uso recreativo.
Atletas e praticantes de musculação podem utilizar doses superiores às avaliadas em pesquisas, prolongar a exposição ou combinar SARMs com outras substâncias.
O risco resultante dessas associações é muito mais difícil de prever.
SARMs fazem mal ao coração?
Também existem motivos para preocupação cardiovascular.
Entre as alterações descritas estão modificações desfavoráveis do perfil lipídico, particularmente redução do HDL-colesterol.
Também foram relatadas alterações da hemoglobina e pressão arterial, além de eventos cardiovasculares em usuários dessas substâncias.
Essas alterações merecem atenção especial porque o risco cardiovascular é resultado da interação de múltiplos fatores.
Um usuário pode simultaneamente apresentar hipertensão, dislipidemia, obesidade, resistência insulínica, histórico familiar de doença cardiovascular e utilizar outros agentes ergogênicos.
Adicionar uma substância capaz de modificar negativamente alguns desses parâmetros não pode ser considerado irrelevante.
SARMs são mais seguros que anabolizantes?
Não existe base científica suficiente para tratar essa afirmação como verdadeira.
Os SARMs foram desenvolvidos justamente na tentativa de obter maior seletividade tecidual do que os andrógenos tradicionais.
Isso, porém, não significa ausência de efeitos sistêmicos.
“Seletivo” não significa “sem efeitos colaterais”.
Também não significa que produtos comercializados ilegalmente como SARMs tenham composição, pureza ou concentração confiáveis.
Outro risco: você pode não saber o que está tomando
Esse talvez seja um dos aspectos mais preocupantes do mercado de SARMs.
Produtos adquiridos pela internet podem não corresponder exatamente ao que consta no rótulo.
Podem existir concentrações diferentes das declaradas, outras substâncias farmacologicamente ativas ou compostos não informados.
Portanto, mesmo que conhecêssemos perfeitamente o perfil de segurança de determinado SARM, ainda permaneceria uma pergunta:
o produto comprado realmente contém apenas aquela substância e naquela concentração?
No mercado paralelo, essa resposta nem sempre é possível.
SARMs são proibidos no esporte?
Atletas competitivos precisam ter atenção especial.
Substâncias com atividade moduladora do receptor androgênico estão sujeitas às regras antidoping, e a utilização de produtos vendidos como SARMs pode resultar também em exposição inadvertida a substâncias proibidas não declaradas no rótulo.
Isso significa que, além dos riscos médicos, existe risco esportivo e profissional para atletas submetidos a controles antidoping.
Por que os SARMs ainda não substituíram a testosterona?
Porque desenvolver um medicamento não significa apenas demonstrar que ele altera a composição corporal.
É necessário demonstrar benefício clínico relevante e segurança aceitável.
No tratamento da sarcopenia, por exemplo, não queremos apenas observar que determinado medicamento aumentou alguns quilogramas de massa magra.
Queremos saber se o paciente ficou mais forte.
Se passou a caminhar melhor.
Se apresenta menor risco de quedas.
Se preservou sua independência funcional.
Se sua qualidade de vida melhorou.
É justamente nessa transição entre “aumentar massa” e “melhorar função” que os resultados dos SARMs ainda são insuficientes ou inconsistentes.
Existe uma forma mais segura de ganhar massa muscular?
Para indivíduos saudáveis, as estratégias com maior respaldo científico continuam sendo muito menos exóticas:
treinamento resistido com progressão adequada de carga;
ingestão suficiente de proteínas;
consumo energético compatível com o objetivo;
sono e recuperação adequados;
creatina monohidratada quando indicada;
correção de deficiências nutricionais;
e investigação de doenças ou alterações hormonais quando existe dificuldade anormal para ganhar ou preservar massa muscular.
A combinação dessas estratégias pode parecer menos impressionante do que um frasco prometendo rápido crescimento muscular, mas apresenta evidências muito mais robustas e um perfil de segurança muito melhor conhecido.
O que investigar quando a pessoa não consegue ganhar músculos?
Dificuldade importante para desenvolver ou preservar massa muscular pode justificar avaliação médica.
Dependendo do quadro clínico, podem ser investigadas alterações relacionadas a testosterona, função tireoidiana, metabolismo glicídico, estado nutricional, doenças renais, hepáticas, inflamatórias e outras condições.
Também é necessário diferenciar dificuldade estética para hipertrofia de condições médicas verdadeiras, como sarcopenia e hipogonadismo.
Utilizar um agente anabólico sem compreender a causa do problema pode simplesmente mascarar uma condição que deveria ser diagnosticada.
SARMs valem a pena?
Considerando as evidências atualmente disponíveis, não existe justificativa para recomendar SARMs para fins estéticos ou para melhorar performance esportiva em indivíduos saudáveis.
A equação é desfavorável.
Existe evidência de aumento de massa magra.
Existe evidência muito menos consistente de melhora significativa da força e da função física.
E existem riscos hormonais, hepáticos, metabólicos e cardiovasculares, além da incerteza relacionada à procedência dos produtos vendidos no mercado paralelo.
Em outras palavras:
mais massa magra não significa necessariamente mais força.
E uma substância ser anabólica não significa que seja segura.
Conclusão
Ostarina, ligandrol, RAD-140 e outros SARMs não são suplementos alimentares. São substâncias farmacologicamente ativas capazes de modular receptores androgênicos.
Alguns SARMs realmente aumentaram massa corporal magra em estudos clínicos.
Entretanto, os resultados sobre força, função física e performance são muito menos consistentes.
Paralelamente, existem preocupações relacionadas à hepatotoxicidade, alterações do colesterol, supressão da produção endógena de testosterona e potenciais consequências cardiovasculares.
A situação torna-se ainda mais problemática quando essas substâncias são adquiridas no mercado paralelo, no qual pureza, concentração e composição podem ser incertas.
Nenhum SARM é atualmente aprovado pela FDA para ganho de massa muscular ou melhora da performance esportiva.
Portanto, para quem busca hipertrofia e desempenho, treinamento resistido estruturado, alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, creatina, sono e recuperação continuam apresentando uma relação entre benefício e risco muito superior.
Na medicina esportiva, uma regra continua extremamente atual:
não basta perguntar se uma substância funciona.
Precisamos perguntar quanto funciona, para qual objetivo, em quem funciona — e qual é o preço biológico desse resultado.
Referências científicas
- Dias JP, Dobs AS. Will Selective Androgen Receptor Modulators Ever Reach the Clinic? The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2026;111(5):e1467-e1471. doi:10.1210/clinem/dgaf700.
- Vasireddi N, Hahamyan HA, Gould HP, et al. Athlete Selective Androgen Receptor Modulators Abuse: A Systematic Review. The American Journal of Sports Medicine. 2025;53(4):999-1009. doi:10.1177/03635465241252435.
- Hahamyan HA, Basaria S. Selective Androgen Receptor Modulators—Transformative Drugs or Heralds of the Next Drug Epidemic? JAMA. 2024;331(16):1359-1360. doi:10.1001/jama.2024.1769.
- Wen J, Syed B, Leapart J, et al. Selective Androgen Receptor Modulators (SARMs) Effects on Physical Performance: A Systematic Review of Randomized Control Trials. Clinical Endocrinology. 2025;102(1):3-27. doi:10.1111/cen.15135.
- Bahat G, Ozkok S. The Current Landscape of Pharmacotherapies for Sarcopenia. Drugs & Aging. 2024;41(2):83-112. doi:10.1007/s40266-023-01093-7.
Dr. Leandro Fioravanti Figueiredo
Cardiologista / Cirurgião Vascular e Geral
CRM MG 53102 / CRM SP 247039
RQE 35112 / 37080 / 65096
Títulos AMB 144415 / 157859 / 245309
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