SARMs para ganhar massa muscular: funcionam? O que a ciência realmente mostra
Os SARMs — moduladores seletivos do receptor androgênico (Selective Androgen Receptor Modulators) — ganharam enorme popularidade no meio fitness nos últimos anos. O apelo é fácil de entender: aumentar a massa muscular e melhorar a composição corporal produzindo, teoricamente, menos efeitos adversos que os esteroides anabolizantes tradicionais.
O problema é que essa promessa não corresponde, até o momento, ao que a evidência científica demonstra.
Estudos clínicos mostram que alguns SARMs realmente conseguem aumentar a massa corporal magra. Entretanto, isso não significa necessariamente aumento proporcional da força, melhora do desempenho esportivo ou benefício funcional. Além disso, seu uso pode produzir alterações hepáticas, cardiovasculares, hormonais e metabólicas relevantes.
Nenhum SARM é atualmente aprovado pela FDA para ganho de massa muscular, melhora de desempenho esportivo ou qualquer outra indicação clínica.
O que são os SARMs?
Os SARMs são moléculas capazes de se ligar ao receptor androgênico, o mesmo receptor por meio do qual a testosterona exerce grande parte de seus efeitos.
A ideia farmacológica original era bastante interessante: desenvolver substâncias que estimulassem preferencialmente os receptores androgênicos presentes no músculo e no osso, produzindo efeitos anabólicos, mas com menor estimulação de outros tecidos.
Em teoria, seria possível obter parte dos benefícios musculares dos andrógenos com menos efeitos adversos sobre próstata, fígado, sistema cardiovascular e eixo hormonal.
Essa seletividade, entretanto, não é absoluta.
Na prática, os SARMs continuam apresentando efeitos sistêmicos e podem interferir significativamente no metabolismo lipídico, função hepática e produção hormonal endógena.
SARMs realmente aumentam massa muscular?
Sim. Este talvez seja o ponto mais importante para separar evidência científica de propaganda.
SARMs como ostarina, ligandrol (LGD-4033) e outros compostos dessa classe demonstraram capacidade de aumentar a massa corporal magra em estudos clínicos.
Isso significa que existe atividade anabólica real.
O problema surge quando confundimos duas coisas diferentes:
aumento da massa magra
e
melhora da força e da função muscular.
Não são necessariamente equivalentes.
Ensaios clínicos demonstraram que o aumento da massa corporal magra produzido pelos SARMs nem sempre foi acompanhado por melhora proporcional de força, mobilidade ou desempenho físico.
Essa diferença é extremamente importante.
Um medicamento pode modificar a composição corporal sem necessariamente transformar esse ganho em melhor capacidade funcional.
Mais músculo significa mais força?
Não obrigatoriamente.
A força muscular depende de diversos fatores além da quantidade absoluta de tecido muscular.
Entre eles estão adaptação neural, recrutamento de unidades motoras, arquitetura muscular, qualidade das fibras, técnica do movimento, treinamento específico, estado nutricional e capacidade cardiovascular.
Por isso, simplesmente aumentar a massa magra medida por métodos de composição corporal não garante melhora proporcional de desempenho.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 analisando ensaios clínicos randomizados com SARMs encontrou resultados variáveis sobre performance física, com benefícios geralmente modestos e inconsistentes.
Portanto, a afirmação de que os SARMs “melhoram muito a performance no treino” não possui, atualmente, sustentação científica robusta.
E o RAD-140?
O RAD-140, também conhecido como testolone, tornou-se particularmente popular no mercado paralelo e em comunidades relacionadas ao fisiculturismo.
É frequentemente comercializado como uma espécie de alternativa aos esteroides anabolizantes.
Esse raciocínio é perigoso.
A existência de atividade anabólica experimental não significa que uma substância seja segura para utilização recreativa.
Além disso, grande parte dos protocolos divulgados na internet utiliza doses, combinações e períodos de exposição que não correspondem aos estudados adequadamente em ensaios clínicos.
Consequentemente, extrapolar resultados experimentais para protocolos utilizados em academias é cientificamente inadequado.
O principal problema: as doses usadas no mundo real
Existe ainda uma diferença importante entre pesquisa clínica e uso recreativo.
Em estudos científicos, doses, duração do tratamento, critérios de inclusão e monitorização laboratorial são rigorosamente controlados.
No ambiente esportivo, isso frequentemente não acontece.
Usuários podem utilizar doses superiores às investigadas, prolongar ciclos, combinar diferentes SARMs ou associá-los a testosterona, esteroides anabolizantes, estimulantes e outras substâncias.
Quanto maior a exposição, menor a possibilidade de extrapolarmos os dados de segurança dos estudos clínicos.
Assim, dizer que determinado SARM apresentou poucos eventos adversos em um ensaio clínico não significa que um “ciclo” encontrado na internet seja igualmente seguro.
Hepatotoxicidade: o fígado é uma das principais preocupações
Lesões hepáticas estão entre os efeitos adversos mais preocupantes associados aos SARMs.
Já foram descritos aumentos de transaminases e casos de lesão hepática clinicamente relevante, incluindo padrões hepatocelulares e colestáticos.
O risco torna-se particularmente preocupante quando essas substâncias são utilizadas em doses elevadas ou associadas a outros compostos potencialmente hepatotóxicos.
Há ainda outro problema: o médico frequentemente não sabe exatamente o que o paciente consumiu.
Isso ocorre porque muitos SARMs são adquiridos pela internet ou pelo mercado paralelo.
O produto comprado pode nem conter aquilo que está escrito no rótulo
Esse é um risco frequentemente ignorado.
Produtos comercializados online como SARMs podem apresentar diferenças entre aquilo que consta no rótulo e aquilo que efetivamente existe dentro do frasco.
Podem ocorrer concentrações diferentes das declaradas e presença de outras substâncias farmacologicamente ativas não informadas.
Portanto, existem dois níveis de incerteza:
os riscos inerentes ao próprio SARM;
e os riscos decorrentes da composição desconhecida do produto adquirido.
Isso torna a utilização recreativa ainda mais imprevisível.
SARMs podem reduzir a testosterona natural?
Sim.
Apesar da palavra “seletivo”, os SARMs continuam ativando receptores androgênicos e podem interferir no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
O organismo percebe a sinalização androgênica e pode reduzir sua própria produção hormonal.
Consequentemente, pode ocorrer diminuição da produção endógena de testosterona.
Dependendo da intensidade e duração da exposição, o usuário pode apresentar alterações hormonais após a suspensão.
Isso desmonta outro mito frequente: o de que SARMs seriam completamente diferentes dos esteroides anabolizantes em relação à supressão hormonal.
Eles podem ser diferentes farmacologicamente, mas isso não significa ausência de supressão do eixo.
E o coração?
O sistema cardiovascular também merece atenção.
Entre as alterações descritas com SARMs estão redução do HDL-colesterol e outras modificações do perfil lipídico.
Do ponto de vista cardiovascular, diminuir HDL e alterar desfavoravelmente o metabolismo lipídico não é algo trivial, principalmente em indivíduos que já apresentam outros fatores de risco.
Também foram relatadas alterações de hemoglobina, pressão arterial e eventos cardiovasculares associados ao uso dessas substâncias.
O risco pode tornar-se ainda mais relevante quando o usuário combina SARMs com testosterona, esteroides anabolizantes, estimulantes ou outras drogas utilizadas com finalidade estética.
O coração não interpreta essas substâncias como “suplementos de academia”. Ele responde aos seus efeitos farmacológicos.
SARMs são suplementos?
Não.
Esse é um erro conceitual importante.
SARMs são substâncias farmacologicamente ativas que atuam sobre receptores androgênicos.
Creatina, proteína e determinados nutrientes utilizados para complementar uma alimentação são uma categoria completamente diferente.
Colocar SARMs dentro do mesmo conceito de “suplementação esportiva” transmite uma falsa percepção de segurança.
Se aumentam massa muscular, por que ainda não são medicamentos aprovados?
Porque demonstrar alteração de um marcador intermediário, como massa corporal magra, não é suficiente para demonstrar benefício clínico.
Para que uma terapia destinada à sarcopenia ou perda muscular seja realmente relevante, queremos saber se o paciente fica mais forte, caminha melhor, apresenta melhor capacidade funcional, sofre menos quedas ou apresenta outros desfechos clinicamente importantes.
Até o momento, os resultados com SARMs não demonstraram de maneira consistente benefícios funcionais suficientes para justificar sua utilização rotineira.
Além disso, surgiram problemas de segurança durante o desenvolvimento clínico de alguns desses medicamentos.
Então SARMs são melhores que testosterona?
Essa comparação não pode ser feita dessa maneira.
A testosterona é um hormônio humano com fisiologia, farmacologia, indicações médicas, contraindicações e sistemas de monitorização amplamente estudados.
SARMs constituem outra classe farmacológica.
Não devemos interpretar a expressão “seletivo” como sinônimo de “seguro”.
Também não existe base científica para concluir que utilizar SARMs recreativamente seja uma maneira segura de obter os benefícios anabólicos dos andrógenos evitando seus efeitos adversos.
Existe uma alternativa realmente comprovada para ganhar massa muscular?
Sim — e ela é muito menos exótica.
Para indivíduos saudáveis que desejam hipertrofia, a estratégia com melhor relação entre eficácia e segurança continua envolvendo treinamento resistido progressivo, ingestão adequada de proteínas, disponibilidade energética compatível com o objetivo, sono adequado e recuperação.
A creatina monohidratada possui extensa literatura científica demonstrando benefício no contexto do treinamento resistido e apresenta um perfil de segurança muito mais conhecido.
Quando existe dificuldade anormal para ganhar ou preservar massa muscular, perda inexplicada de força ou redução progressiva de massa magra, o raciocínio deve mudar.
Nesses casos, é necessário investigar possíveis causas clínicas, como hipogonadismo, doenças tireoidianas, deficiência nutricional, doenças inflamatórias, diabetes, insuficiência cardíaca, doenças renais, doenças hepáticas, alterações neurológicas, sarcopenia e outras condições.
Tratar a causa é muito diferente de simplesmente adicionar uma substância anabólica.
O paradoxo dos SARMs
Os SARMs representam um interessante paradoxo da medicina esportiva moderna.
Eles foram desenvolvidos justamente na tentativa de separar os efeitos anabólicos desejáveis dos efeitos androgênicos indesejáveis.
A ideia continua cientificamente interessante.
Mas a promessa ainda não se transformou em uma terapia com relação benefício-risco suficientemente estabelecida para utilização estética ou esportiva.
Sabemos que alguns SARMs conseguem aumentar massa magra.
Ainda não sabemos demonstrar consistentemente que esse aumento produz melhora proporcional de força e função física.
E sabemos que existem riscos.
Essa distinção é fundamental.
Conclusão
Os SARMs não são substâncias inertes e tampouco suplementos comuns. São agentes farmacologicamente ativos capazes de estimular receptores androgênicos e produzir efeitos anabólicos.
Alguns compostos, como ostarina e ligandrol, demonstraram aumento de massa corporal magra em estudos clínicos.
Entretanto, o ganho de massa não se converte de maneira consistente em aumento de força, melhora funcional ou maior desempenho esportivo.
Ao mesmo tempo, existem preocupações relacionadas a hepatotoxicidade, alterações do perfil lipídico, supressão hormonal e potenciais efeitos cardiovasculares, além do problema adicional da adulteração e contaminação de produtos vendidos no mercado paralelo.
Atualmente, nenhum SARM possui aprovação da FDA para ganho de massa muscular ou melhora de performance.
Por isso, utilizar SARMs com finalidade estética ou esportiva significa assumir riscos conhecidos — e outros ainda insuficientemente conhecidos — em troca de benefícios funcionais que permanecem incertos.
Quando o objetivo é ganhar músculo, o caminho baseado em treinamento resistido, nutrição adequada, recuperação e investigação médica de eventuais alterações metabólicas continua apresentando evidências muito mais sólidas e uma relação benefício-risco incomparavelmente melhor.
Referências
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- Hahamyan HA, Basaria S. Selective Androgen Receptor Modulators—Transformative Drugs or Heralds of the Next Drug Epidemic? JAMA. 2024;331(16):1359-1360. doi:10.1001/jama.2024.1769.
- Wen J, Syed B, Leapart J, et al. Selective Androgen Receptor Modulators (SARMs) Effects on Physical Performance: A Systematic Review of Randomized Control Trials. Clinical Endocrinology. 2025;102(1):3-27. doi:10.1111/cen.15135.
- Bahat G, Ozkok S. The Current Landscape of Pharmacotherapies for Sarcopenia. Drugs & Aging. 2024;41(2):83-112. doi:10.1007/s40266-023-01093-7.
Dr. Leandro Fioravanti Figueiredo
Cardiologista / Cirurgião Vascular e Geral
CRM MG 53102 / CRM SP 247039
RQE 35112 / 37080 / 65096
Títulos AMB 144415 / 157859 / 245309
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