Testosterona normal não é indicação de reposição: quando investigar e quando tratar o hipogonadismo masculino?
A reposição de testosterona ganhou enorme popularidade nos últimos anos. Homens com cansaço, redução da libido, dificuldade para ganhar massa muscular, aumento da gordura abdominal ou piora do desempenho sexual frequentemente chegam ao consultório perguntando se precisam “repor testosterona”.
Mas existe um ponto fundamental: testosterona não deve ser prescrita simplesmente porque o paciente apresenta sintomas inespecíficos — e muito menos porque deseja elevar um resultado laboratorial que já está dentro da normalidade.
Um exemplo bastante didático é o homem com testosterona total de 495 ng/dL. Esse resultado, isoladamente, está muito distante da faixa habitualmente utilizada para caracterizar deficiência androgênica. A Endocrine Society utiliza como referência um limite inferior harmonizado de aproximadamente 264 ng/dL em homens jovens, saudáveis e não obesos, enquanto outras diretrizes e sociedades adotam valores próximos de 300 ng/dL. Além disso, documentos recentes consideram que concentrações acima de 12 nmol/L — aproximadamente 346 ng/dL — geralmente não são compatíveis com hipogonadismo.
Portanto, diante de uma testosterona total de 495 ng/dL, a pergunta mais importante não é “qual dose de testosterona devemos usar?”, mas sim: há realmente evidência de hipogonadismo?
Hipogonadismo não é apenas um número no exame
O hipogonadismo masculino é uma síndrome clínica. Para o diagnóstico, devem coexistir sinais ou sintomas compatíveis com deficiência androgênica e concentrações de testosterona inequivocamente e persistentemente reduzidas.
Essa definição continua sendo enfatizada tanto pelas diretrizes da Endocrine Society quanto pela revisão publicada no JAMA em 2026.
Isso significa que encontrar uma testosterona discretamente baixa em um exame isolado não estabelece o diagnóstico. Da mesma forma, sintomas inespecíficos com testosterona normal não significam automaticamente deficiência hormonal.
Entre os achados que aumentam a suspeita clínica estão redução da libido, diminuição das ereções espontâneas, disfunção erétil, infertilidade, ginecomastia de início recente, redução do volume testicular, osteopenia ou osteoporose e anemia sem outra explicação. A revisão contemporânea do JAMA destaca especialmente redução do desejo sexual e diminuição das ereções espontâneas entre as manifestações mais comuns.
Já sintomas como fadiga, indisposição, dificuldade de concentração, perda de força e aumento de gordura corporal são muito menos específicos. Eles podem ocorrer em obesidade, diabetes, hipotireoidismo, depressão, distúrbios do sono, sedentarismo e inúmeras outras condições.
Testosterona total de 495 ng/dL: faz sentido repor?
Em princípio, não.
Uma testosterona total de 495 ng/dL está acima dos limites bioquímicos utilizados habitualmente para diagnóstico de hipogonadismo. Um posicionamento conjunto da Society for Endocrinology e da Association for Clinical Biochemistry and Laboratory Medicine afirma que valores matinais em jejum acima de 12 nmol/L, aproximadamente 346 ng/dL, geralmente não são consistentes com hipogonadismo. O documento acrescenta que existe pouca evidência de benefício da reposição em homens com testosterona acima desse patamar.
Isso não significa que todo homem com 300 ng/dL tenha hipogonadismo, nem que exista um número mágico que possa ser interpretado sem contexto.
Existe uma zona intermediária na qual sintomas, método laboratorial, SHBG, horário da coleta, doenças associadas e repetição do exame passam a ser particularmente importantes.
E se a testosterona livre estiver baixa?
Aqui surge outra fonte frequente de confusão.
Imagine um exame mostrando:
Testosterona total: 495 ng/dL
Testosterona livre: 9,5
O número “9,5” sozinho praticamente não pode ser interpretado. É indispensável saber a unidade, o método utilizado e a faixa de referência daquele laboratório.
9,5 ng/dL e 9,5 pg/mL representam concentrações completamente diferentes.
Além disso, alguns métodos utilizados para medir diretamente testosterona livre apresentam limitações analíticas importantes. A diálise de equilíbrio associada a método analítico apropriado é considerada referência. Na prática clínica, uma alternativa útil é calcular a testosterona livre utilizando testosterona total, SHBG e albumina.
Portanto, não é adequado indicar reposição simplesmente porque apareceu uma testosterona livre marcada com um asterisco no laudo.
O papel do SHBG
Grande parte da testosterona circulante encontra-se ligada a proteínas, particularmente à SHBG — sex hormone-binding globulin.
Alterações da SHBG podem modificar significativamente a interpretação da testosterona total.
Quando a SHBG está dentro da faixa normal, documentos especializados apontam que a testosterona livre calculada geralmente acrescenta pouca informação diagnóstica quando comparada à testosterona total. Quando a SHBG está elevada, entretanto, a testosterona livre calculada pode ajudar a identificar deficiência apesar de uma testosterona total aparentemente normal. Quando a SHBG está reduzida, pode ocorrer a situação inversa: testosterona total baixa em um homem que permanece funcionalmente eugonadal.
É por isso que, nos casos duvidosos, faz mais sentido solicitar testosterona total, SHBG e albumina e interpretar esses resultados em conjunto do que simplesmente olhar para uma dosagem isolada de testosterona livre.
Obesidade pode confundir ainda mais
Esse é um ponto extremamente importante na prática clínica.
Homens com obesidade frequentemente apresentam redução da SHBG e, consequentemente, testosterona total mais baixa. Isso não significa necessariamente falência testicular.
Uma revisão recente no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism descreve esse fenômeno como um possível “pseudo-hipogonadismo” associado à obesidade: testosterona total e SHBG podem estar reduzidas enquanto LH e FSH permanecem normais, sem evidência de doença estrutural do eixo hipotálamo-hipófise-testículo. Nesses casos, o tratamento da obesidade e das comorbidades metabólicas é prioritário, e a testosterona não deve ser prescrita simplesmente para corrigir o número do exame.
Esse conceito é particularmente relevante na era dos tratamentos modernos para obesidade.
Como a testosterona deve ser dosada?
O exame também precisa ser realizado adequadamente.
A testosterona apresenta variação biológica e pode ser influenciada pelo sono, alimentação, doenças agudas e medicamentos.
Para investigação de hipogonadismo, recomenda-se geralmente colher testosterona total pela manhã, idealmente em jejum e quando o paciente estiver em seu estado habitual de saúde. Uma concentração baixa deve ser confirmada em outra ocasião antes de estabelecer o diagnóstico.
Em uma avaliação convencional, podemos pensar no seguinte fluxo clínico:
Sintomas sugestivos → testosterona total matinal → resultado reduzido → repetir testosterona total em condições adequadas → avaliar SHBG/testosterona livre quando indicado → confirmar deficiência → dosar LH e FSH → determinar se o hipogonadismo é primário ou secundário → investigar a causa → somente então discutir tratamento.
A Endocrine Society recomenda expressamente que, após a confirmação do hipogonadismo, LH e FSH sejam utilizados para diferenciar comprometimento testicular primário de doença hipotalâmico-hipofisária.
Tenho sintomas, mas minha testosterona é normal. E agora?
Esse talvez seja o cenário em que uma avaliação médica cuidadosa tenha maior importância.
Se um homem apresenta testosterona total de 495 ng/dL, mas refere cansaço, queda da libido ou disfunção sexual, simplesmente aumentar artificialmente sua testosterona pode não tratar a verdadeira causa do problema.
Dependendo da apresentação clínica, pode ser necessário investigar diabetes e resistência insulínica, função tireoidiana, prolactina, obesidade, síndrome metabólica, apneia obstrutiva do sono, depressão, efeitos adversos de medicamentos, consumo excessivo de álcool, doença cardiovascular e causas vasculares ou psicológicas de disfunção erétil.
Ou seja: nem todo sintoma atribuído à testosterona é causado pela testosterona.
Reposição hormonal também não é um tratamento neutro
Quando existe hipogonadismo verdadeiro, a testosterona pode ter papel terapêutico importante. Porém, isso é diferente de utilizar testosterona como estratégia de “otimização hormonal” em um homem eugonadal.
Antes do tratamento é necessário considerar contraindicações, objetivos terapêuticos e fertilidade. A testosterona exógena pode suprimir a produção de gonadotrofinas e a espermatogênese, razão pela qual a Endocrine Society recomenda contra seu uso em homens que planejam fertilidade no curto prazo. A diretriz também estabelece outras situações em que o tratamento não deve ser iniciado sem avaliação adequada.
Durante o tratamento devidamente indicado, também são necessários acompanhamento clínico e monitorização laboratorial.
O exame deve confirmar a doença — não criar uma doença
A medicina hormonal não deve perseguir números isolados.
Uma testosterona total de 495 ng/dL não constitui, por si só, indicação de reposição. Mesmo diante de uma testosterona livre aparentemente baixa, primeiro é preciso conhecer unidade, método, SHBG, albumina, condições da coleta e contexto clínico.
A abordagem mais segura pode ser resumida em uma ideia:
tratamos o paciente com hipogonadismo confirmado, e não simplesmente um resultado laboratorial.
Quando os sintomas existem apesar de testosterona adequadamente normal, a melhor conduta costuma ser procurar a verdadeira causa desses sintomas, em vez de transformar um homem eugonadal em usuário crônico de testosterona.
Referências
Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744.
Jayasena CN, de Silva NL, O’Reilly MW, et al. Standardising the biochemical confirmation of adult male hypogonadism: a joint position statement by the Society for Endocrinology and Association of Clinical Biochemistry and Laboratory Medicine. Clin Endocrinol (Oxf). 2024;101(5):531-534.
Anawalt BD, O’Connor KM, Grossmann M. Adult Male Hypogonadism: A Review. JAMA. 2026;335(24):2146-2159.
Grossmann M, Jayasena CN, Anawalt BD. Approach to the Patient: The Evaluation and Management of Men ≥50 Years With Low Serum Testosterone Concentration. J Clin Endocrinol Metab. 2023;108(9):e871-e884.
Dr. Leandro Fioravanti Figueiredo
Cardiologista / Cirurgião Vascular e Geral
CRM MG 53102 / CRM SP 247039
RQE 35112 / 37080 / 65096
Títulos AMB 144415 / 157859 / 245309
Pós-graduação em Direito Processual Civil
Pós-graduação em Direito Médico e Hospitalar
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