Um governo de direita pode melhorar ou piorar a saúde no Brasil? O que realmente importa para o SUS
A alternância de poder sempre levanta dúvidas sobre o futuro da saúde pública. Quando se discute a possibilidade de um governo de direita no Brasil, surgem previsões opostas: de um lado, maior eficiência, participação privada e controle de gastos; de outro, receio de redução do financiamento público e aumento das desigualdades.
A realidade é mais complexa.
Ser de direita ou de esquerda, isoladamente, não determina se um sistema de saúde será bom ou ruim. Para o paciente, importa muito mais o conjunto concreto de políticas adotadas: financiamento, eficiência da gestão, atenção primária, contratação de serviços privados, assistência farmacêutica, vacinação, incorporação de tecnologia, digitalização e remuneração de hospitais e profissionais.
A pergunta mais útil, portanto, não é simplesmente se a direita melhoraria ou pioraria o SUS.
É:
qual modelo de saúde seria implantado e como ele seria financiado?
O Brasil já possui um sistema público-privado
Embora o SUS seja universal, o sistema brasileiro de saúde está longe de ser exclusivamente estatal.
Segundo dados comparativos da OCDE, aproximadamente 45% do gasto em saúde no Brasil é financiado por esquemas governamentais ou compulsórios, enquanto na média dos países da organização essa participação fica próxima de 75%. Planos voluntários e pagamentos diretamente realizados pelas famílias representam parcelas relevantes do restante.
Isso significa que o Brasil já possui uma relação bastante intensa entre Estado e iniciativa privada.
O SUS contrata hospitais filantrópicos e privados, laboratórios, clínicas, serviços de diagnóstico e inúmeros outros prestadores.
Por isso, falar em maior participação privada não significa necessariamente acabar com o SUS.
É possível manter financiamento público e acesso universal, utilizando capacidade privada para executar parte da assistência.
Essa distinção é fundamental.
O que poderia acontecer com uma agenda econômica mais liberal?
Um eventual governo de direita poderia adotar diferentes estratégias. Uma delas seria ampliar mecanismos de mercado dentro do próprio sistema de saúde.
Entre as possibilidades estariam maior contratação de hospitais e clínicas privadas pelo SUS, parcerias público-privadas, remuneração vinculada a resultados, redução de burocracia, digitalização e melhor aproveitamento da capacidade instalada fora da rede estatal.
Isso poderia ser particularmente relevante para um dos maiores problemas atuais do SUS:
a espera pela atenção especializada.
Consultas com especialistas, exames de imagem, ecocardiogramas, endoscopias, cirurgias eletivas e diversos procedimentos frequentemente apresentam gargalos muito maiores que a atenção primária.
Se existe capacidade ociosa na iniciativa privada, uma possibilidade é o Estado comprar essa capacidade em vez de necessariamente construir toda uma nova estrutura pública.
Não é apenas uma possibilidade teórica. O governo federal atual já vem utilizando mecanismos de integração com hospitais e operadoras privadas para ampliar a oferta de atendimento especializado no SUS.
Portanto, integração público-privada não é uma política exclusivamente de direita.
A diferença estaria principalmente na intensidade e no desenho dessa participação.
Mais iniciativa privada poderia reduzir as filas?
Pode, mas não automaticamente.
Imagine uma região onde pacientes aguardam meses por um determinado exame.
Ao mesmo tempo, existem equipamentos e profissionais disponíveis em clínicas privadas da mesma região.
Uma possibilidade é construir nova infraestrutura pública.
Outra é contratar imediatamente parte da capacidade existente.
Dependendo dos preços, qualidade, contratos e fiscalização, a segunda alternativa pode ser mais rápida ou eficiente.
O problema surge quando a contratação é mal estruturada.
Se o Estado simplesmente paga procedimentos sem mecanismos adequados de auditoria, qualidade e coordenação assistencial, os gastos podem aumentar sem que os resultados melhorem proporcionalmente.
Portanto:
participação privada não significa automaticamente eficiência.
Assim como:
prestação estatal não significa automaticamente ineficiência.
O desenho dos incentivos importa enormemente.
Remuneração por desempenho
Uma mudança potencialmente importante seria substituir progressivamente parte da lógica de simplesmente pagar por produção pela remuneração baseada também em resultados.
No modelo tradicional de fee-for-service, quanto mais procedimentos são realizados, maior tende a ser a remuneração.
Isso pode criar incentivos inadequados.
Em modelos baseados em valor, podem ser considerados indicadores como:
mortalidade, reinternação, complicações, tempo de espera, satisfação do paciente, adesão ao tratamento e desfechos clínicos.
A discussão internacional sobre saúde tem caminhado progressivamente nessa direção.
O objetivo deixa de ser simplesmente:
“Quantos procedimentos foram realizados?”
e passa também a incluir:
“Qual resultado conseguimos produzir para o paciente?”
Mas existe o outro lado da equação
Uma agenda fiscalmente conservadora pode também priorizar redução de despesas públicas.
E aqui existe uma diferença fundamental entre duas políticas aparentemente semelhantes:
reduzir desperdício
e
reduzir assistência.
Elas não são a mesma coisa.
Se um governo consegue eliminar desperdícios, melhorar compras, reduzir fraudes, integrar sistemas e aumentar produtividade, pode produzir mais assistência com o mesmo orçamento.
Mas se simplesmente reduz o financiamento sem aumentar produtividade, alguém absorverá essa diferença.
Normalmente, ela aparece como:
mais filas, menor disponibilidade de procedimentos, maior gasto das famílias ou maior procura por planos privados.
Esse é um risco particularmente importante no Brasil porque a participação pública no financiamento da saúde já é relativamente baixa quando comparada à média da OCDE.
Cortar gastos não é a mesma coisa que aumentar eficiência
Essa distinção deveria ocupar posição central em qualquer discussão política sobre saúde.
Considere um hospital que gasta R$ 100 milhões para produzir determinado volume de atendimento.
Se mudanças de gestão permitem produzir o mesmo resultado por R$ 90 milhões, houve ganho de eficiência.
Agora imagine simplesmente reduzir o orçamento para R$ 90 milhões sem mudar processos, produtividade ou desperdícios.
Nesse caso, provavelmente haverá redução da oferta.
Portanto, avaliar apenas quanto um governo gastou pode ser insuficiente.
Precisamos analisar simultaneamente:
quanto gastou + quantas pessoas atendeu + com que qualidade + com quais resultados.
O SUS tem espaço para ganhar eficiência?
Sim.
Um sistema gigantesco, descentralizado e responsável pelo atendimento de uma população continental inevitavelmente apresenta oportunidades importantes de melhoria.
Algumas delas independem completamente de ideologia.
Por exemplo:
prontuário eletrônico interoperável, centralização inteligente de filas, integração regional, compras em escala, telemedicina, redução da duplicação de exames, regulação baseada em dados, acompanhamento de indicadores e melhor integração entre atenção primária e especialistas.
O Banco Mundial já identificou historicamente oportunidades relevantes para ganhos de eficiência no sistema brasileiro, embora a magnitude das estimativas dependa do período e da metodologia utilizada.
Portanto, é perfeitamente possível defender responsabilidade fiscal e simultaneamente aumentar a quantidade de assistência oferecida.
Mas isso exige produtividade, e não apenas redução orçamentária.
A revolução silenciosa pode estar nos dados
Existe uma área que talvez tenha impacto maior do que muitas discussões ideológicas: saúde digital.
Imagine um sistema no qual um médico consiga acessar, com autorização e segurança, informações clínicas relevantes produzidas em diferentes pontos da rede.
O paciente poderia evitar repetir exames.
Uma internação poderia ser conhecida pela equipe da atenção primária.
Resultados laboratoriais poderiam acompanhar o paciente.
Telemedicina poderia conectar especialistas a municípios menores.
Algoritmos poderiam identificar pacientes que abandonaram acompanhamento.
Filas poderiam ser organizadas por prioridade clínica em vez de simplesmente ordem cronológica.
O Brasil avançou institucionalmente nessa direção em 2026, inclusive com política nacional voltada para informação e saúde digital, integração de dados e telessaúde.
A continuidade ou expansão desse processo deveria ser observada em qualquer governo.
O que muda para médicos, clínicas e hospitais?
Esse é outro ponto pouco discutido.
O modelo escolhido pelo governo influencia não apenas pacientes, mas toda a estrutura de prestação de serviços.
Se houver expansão da contratação complementar, clínicas privadas, hospitais filantrópicos, laboratórios e médicos especialistas podem assumir uma participação maior na execução de serviços financiados pelo SUS.
Isso poderia criar uma estrutura semelhante a:
Estado financia → paciente recebe gratuitamente → prestador público ou privado executa.
Esse modelo não significa necessariamente privatização do sistema.
O financiamento e a garantia de acesso podem continuar públicos.
O que muda é quem executa o serviço.
Por outro lado, se houver uma política centrada predominantemente em contenção de despesas, sem atualização adequada dos valores pagos aos prestadores, pode ocorrer exatamente o inverso: menor interesse da rede complementar em atender pacientes do SUS.
A tabela do SUS é uma questão estratégica
Há um problema frequentemente relatado por hospitais e prestadores: determinados procedimentos possuem remuneração pública que pode não acompanhar adequadamente a evolução de seus custos.
Isso cria uma situação econômica difícil.
Se realizar determinado procedimento custa mais do que o valor recebido, aumentar o volume pode significar aumentar o prejuízo.
Uma eventual expansão da participação privada dependeria, portanto, de contratos economicamente sustentáveis.
Não basta dizer:
“Vamos contratar a rede privada.”
É necessário responder:
por quanto, com quais metas, com quais indicadores de qualidade e com qual fiscalização?
Atenção primária não pode ser esquecida
Existe ainda outro risco.
A contratação privada pode ser particularmente atraente para procedimentos, exames e cirurgias porque seus resultados são facilmente quantificáveis.
Mas grande parte da saúde de uma população é determinada antes de o paciente chegar ao hospital.
Controle da hipertensão.
Tratamento do diabetes.
Vacinação.
Pré-natal.
Controle do tabagismo.
Diagnóstico precoce.
Prevenção cardiovascular.
Acompanhamento de doenças crônicas.
Uma política eficiente precisa equilibrar atenção primária e especializada.
Resolver filas cirúrgicas sem controlar hipertensão, diabetes e obesidade significa tratar consequências sem reduzir adequadamente suas causas.
Cinco indicadores que deveríamos acompanhar em qualquer governo
Em vez de julgar uma política de saúde exclusivamente pela ideologia de quem ocupa a Presidência, existem indicadores objetivos muito mais úteis.
O primeiro é o gasto público real em saúde por habitante.
O segundo é o tempo de espera para consultas, exames e cirurgias.
O terceiro é a remuneração efetiva dos prestadores e a capacidade de manter uma rede assistencial sustentável.
O quarto é a evolução de indicadores clínicos, como mortalidade evitável, controle de doenças crônicas, vacinação e internações potencialmente evitáveis.
E o quinto é a produtividade do dinheiro investido.
Quanto de saúde conseguimos produzir para cada real gasto?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
Mais dinheiro necessariamente produz melhor saúde?
Não necessariamente.
Países podem gastar quantidades semelhantes e apresentar resultados diferentes.
Gestão, prevenção, educação, estrutura demográfica, desigualdade, saneamento, organização da rede e produtividade influenciam profundamente os resultados.
Por outro lado, existe também um limite para a eficiência.
Nenhum sistema consegue indefinidamente oferecer mais consultas, medicamentos, profissionais, hospitais, exames e cirurgias enquanto seu financiamento real diminui.
Por isso, a discussão madura precisa abandonar dois extremos:
“Todo aumento de gasto melhora a saúde.”
e
“Basta administrar melhor e podemos cortar indefinidamente.”
Ambos simplificam excessivamente um problema complexo.
O verdadeiro debate: quem financia e quem presta o serviço?
Talvez essa seja a maneira mais interessante de compreender a discussão.
Existem duas perguntas diferentes:
Quem paga?
e
Quem executa?
O Estado pode financiar um serviço realizado por uma empresa privada.
Uma empresa privada pode administrar uma estrutura financiada majoritariamente pelo Estado.
Um hospital público pode oferecer diretamente o atendimento.
Diferentes países combinam essas estruturas de maneiras distintas.
Portanto, universalidade e participação privada não são necessariamente conceitos incompatíveis.
A questão central é garantir acesso, qualidade, sustentabilidade financeira e fiscalização.
Um governo de direita melhoraria o SUS?
Não é possível responder apenas pela classificação ideológica.
Podemos imaginar dois governos igualmente classificados como de direita.
O primeiro preserva financiamento público, melhora contratos, integra a rede privada, digitaliza o sistema, remunera desempenho e reduz desperdícios.
O segundo simplesmente reduz despesas sem conseguir aumentar produtividade.
Os resultados provavelmente seriam muito diferentes.
Da mesma maneira, governos de esquerda também podem apresentar desenhos, prioridades e resultados distintos.
Ideologia ajuda a entender quais instrumentos um governo pode preferir, mas não determina automaticamente o resultado da política pública.
O número que merece atenção
Se fosse necessário escolher um indicador fiscal para acompanhar ao longo de um próximo governo, um dos mais informativos seria:
gasto público real em saúde por habitante.
Mas ele deveria ser observado ao lado de produtividade e desfechos.
Se o gasto real por habitante cresce e a eficiência também melhora, existe espaço para expansão significativa da assistência.
Se o gasto permanece estável, mas a produtividade aumenta, também podemos ter melhora.
Se o gasto cai e a produtividade cresce na mesma proporção, o atendimento pode ser preservado.
O cenário preocupante seria:
queda importante do financiamento real + ausência de ganho de produtividade.
Nesse caso, a pressão tende a aparecer em algum lugar do sistema.
Normalmente nas filas, na oferta de serviços ou no bolso das famílias.
A própria OCDE vem enfatizando simultaneamente a necessidade de sustentabilidade fiscal e de ganhos de eficiência nos sistemas de saúde.
Conclusão
A pergunta “um governo de direita seria melhor ou pior para a saúde?” é compreensível, mas simplifica excessivamente a questão.
Uma pergunta mais útil seria:
Que modelo de saúde será adotado, quanto será investido e quantos resultados serão produzidos com esse investimento?
Maior participação privada pode ampliar rapidamente a capacidade assistencial quando bem contratada e fiscalizada.
Digitalização pode eliminar desperdícios.
Remuneração baseada em resultados pode alinhar incentivos.
Gestão eficiente pode liberar recursos hoje mal utilizados.
Ao mesmo tempo, redução do financiamento sem aumento correspondente de produtividade pode aumentar filas, transferir despesas para as famílias e aprofundar diferenças de acesso.
Portanto, a qualidade da saúde brasileira entre 2027 e 2030 dependerá menos do rótulo ideológico do próximo presidente e muito mais das decisões concretas tomadas sobre financiamento, produtividade, prevenção, tecnologia, remuneração e integração entre SUS e iniciativa privada.
No final, talvez exista uma métrica mais importante que todas as outras:
quanto de saúde conseguimos entregar à população para cada real investido — sem deixar de garantir acesso a quem não pode pagar.
Comentários
Postar um comentário